Tuesday, May 15, 2012

História de uma foto: À mesa...




É um dos traços comuns à humanidade. O tempo da refeição. E se o stress nórdico tem roubado um pouco a comunhão deste acto, os latinos - e o resto do mundo - ainda gozam-no com a sociabilidade que tal implica.
A comida é um dos elos mais importantes da humanidade. À volta de uma mesa cumprimos rituais, contamos histórias e aproveitamos paladares que a criativadade humana cria. Esta refeição - no meio da selva asiática - trouxe a satisfação de um dia a caminhar. Trouxe mais histórias. Sabores desconhecidos – como o do miolo do bambu - e outros familiares – como o da hortelã. E no meio de latinos, a conversa acaba por girar à volta da comida. Passeamo-nos por outros sabores, ao mesmo tempo que partilhamos experiências.
À mesa viajamos por continentes, sonhos e emoções. Encontramos uma parte da essência da humanidade e apaziguamos aquele vazio que o estomago já sentia...

Monday, May 14, 2012

Nova rotina


O mundo do viajante também é feito de rotinas. Umas pequenas – como arranjar a mochila – outras que ocupam mais tempo – como arranjar um quarto para dormir. Esta última começa sempre com um olhar que tem um toque de pasmo e outro de perdido. Por este mundo fora são muitos que assim chegam a um novo local.
Eu não estava diferente no primeiro momento de Luang Nam Tha. Talvez um pouco mais perdido que o habitual. Acabava de chegar a um novo país e esta era a minha primeira paragem. Pior, cheguei mais cedo. Quando saí do bus pensava que estava numa simples paragem. Um grupo de turistas despertaram a minha curiosidade: “o que estão a fazer aqui?” Pesquisei à minha volta e nos vidros das bilheteiras encontrava a mesma palavra repetida: Namtha... “Será a minha paragem? Luang Nam Tha?” Decido perguntar. E à terceira confirmação, percebi que era o meu destino.
O segundo passo desta rotina é perceber como se chega ao local dos hosteis. Esta era uma vila pequena demais para ter um mapa no meu guia. E à minha volta só existia... bem, nada. Tinha um mercado, autocarros e uma rua. Nada de tuc-tucs a tentarem vender um hotel ou o quer que seja.
Terceiro passo desta rotina: sair da estação. Com nenhuma opção que não seja a rua, a vida estava facilitada. Faltava escolher a direcção. À esquerda não via nada mais que a rua e os descampados que a envolviam. À direita... voila os tuc-tuc's e o grupo de turistas. Uma escolha fácil. Quando cheguei eles estavam em negociações. Também vão para a cidade, pelo que acabamos por ir juntos. A vila vai-se compondo consoante nos aproximamos do seu centro. Luang Nam Tha tem uma rua principal de onde, todas as outras desembocam. Quando estamos rodeados de hotéis e agências de viagens o condutor pára o tuc-tuc.
Altura de dar o último passo desta rotina. Pegar de novo nas mochilas e começar a bater à porta das guesthouses, com as seguintes perguntas:
“Do you have room?”
“How much?”
“Can I see it?”
Daqui seguem duas alternativas:
“ok, I'll be back if I don't find cheaper” que serve tanto para quando inicias a pesquisa e queres ter a sensibilidade do preço.
Ou então:
“Discount... discount?” que é utilizado quando já tens um quarto que te interessa.
No meu caso faço esta última pergunta com uma voz de pedido, mais do que exigência. Não sou bom a negociar, e esta é a melhor forma que arranjo. Para além disso, aqui a negociação é diferente da indiana. O simples recusar significa isso mesmo, e não que queres um preço muito mais baixo.
E desta forma que consegui o primeiro quarto em Luang Nam Tha. Uma guesthouse que fica um pouco fora da rua principal – normalmente mais baratas – com um aspecto... próprio para ficar apenas um dia. Com a chave na mão, chegava ao fim desta nova rotina. O último momento acontece com o suspiro final... mas, pensando bem, não é assim que terminam todas?

Sunday, May 13, 2012

Atravessar uma fronteira


Uma nova experiência. Atravessar a fronteira por terra... bem, neste caso, rio. Até agora apenas o fizera num aeroporto. Estava curioso. Ao chegar ao posto fronteiriço no rio Mekong não sabia o que fazer. Mas tudo foi fácil. Passaporte entregue, papel de saída preenchido e carimbo colocado. Estava oficialmente fora da Tailândia. Altura de descer a margem do rio e apanhar um dos barcos longos e esguios que estão à espera de passageiros.
Ao som do motor, arrancamos para um novo país. É uma sensação estranha. A de atravessar uma terra-de-ninguém cheia de água. Quando passo um rio, espero encontrar a mesma cidade ou cidades-irmãs. A sensação era a mesma e apenas a bandeira me dizia que era um outro país. Mas isso era apenas aparência...
Mal pus o pé na outra margem, senti que era diferente. Algo súbtil. Andei um pouco até ao posto fronteiriço. Sou recebido por rasgados sorrisos e apresentado à burocracia que compõe qualquer entrada num país. Uma pergunta torna-se impossível de responder: “where do you stay?” Pois... deveria ser fácil, mas desde que comecei a viajar que é comum ir para o sitio sem dormida marcada. Neste caso, nem sabia qual a cidade em que ficaria. Pergunto-lhe se tenho de preencher. Ele diz que não é importante. Com tudo resolvido é altura de pagar o visto...
“What? No euros?!”
“No euros... Dolars” responde-me. Vejo quanto tenho e não é suficiente. Olho em volta para tentar encontrar uma solução. Reparo numa cabine de câmbio vazia e pergunto:
“When does it open?”
“2 P.M.” lapidar, esta resposta... tal significa que teria de pernoitar por ali. Um atraso na viagem que não me apetecia ter.
“Other place?” pergunto, na vã esperança que ainda haja solução. Digo “vã” porque sou optimista. Outra solução resolver a seguinte charada: “No money, no visa. No visa, no money...”
“yes... ATM... end of the road.” responde-me com um simpático sorriso. “You can go to the ATM...”

Nem queria acreditar. Com aquela resposta, desatava o nó górdio que me encontrava. Foi assim que entrei pela primeira vez no Laos. Sem visto, desorientado e à procura de um ATM. Uma sensação estranha de ilegalidade e de entrar num país que parecia diferente do que já tinha experimentado até agora...

Monday, May 7, 2012

Em pausa por uma semana

Vou estar em pausa por uma semana e este blogue também estará parado. Volto para a semana com mais novidades :)

Thursday, May 3, 2012

Ritmo

E por vezes a viagem tem um ritmo próprio que nos ultrapassa. Cada um altera a sensação do local que visitamos. O norte da Tailândia foi feito a três tempos. Cada deu-me uma emoção própria e pintou com diferentes traços a minha viagem.
Andante - Ayuthaya
Foi quase uma resposta a um desafio. No dia que cheguei, no meio de uma conversa ouvi: “Ayuthaya é impossível de ser feito a pé”. A minha forretice e curiosidade levou-me a abandonar a ideia de alugar uma bicicleta e decidi ir a pé visitar esta bela cidade-templo. A geografia ajudava-me. Esta vila turistica é plana e está no meio do rio, numa ilha natural.
E se os templos, meios degradados - mas turisticamente preparados - são a grande atracção, descobri que é o sorriso das pessoas e os pequenos pormenores da vida rotineira que me davam maior gozo. Em vez de uma rápida evolução entre locais, via os contornos dos templos transformarem-se em árvores floridas. Estas transmutavam-se em ruas estreitas, casas de madeira e becos, para de novo serem alargadas nas avenidas. Aqui os traços eram largos e o ritmo próprio de uma artéria principal. De novo esbatem-se noutro templo centenário. Sigo essas linhas para a confusão pacífica de uma parte citadina do outro lado do rio.
Sigo ao meu ritmo. Um andante muito andante... por vezes com toques de adagio sempre que o calor me rouba o folgo. Mas quando uma vendedora me dá as indicações para o meu novo destino, o meu ritmo acelera um pouco. Passa para um allegro, enquanto tentamos comunicar e eu aprendo umas palavras de tailandês. Despeço-me com um sorriso que devolve os que estou a receber.
De novo sozinho, de novo andante. Continuo a seguir os traços desta cidade. E após atravessarem o rio, transformam-se em dourados... pelos telhados do templo e pelo pôr de sol que, ao mesmo ritmo do meu, se vai escondendo por detrás da paisagem.
Gravissimo - Chiang Mai
E por vezes o ritmo é tão lento que parece parado. Foi desta forma que eu vi a capital turistica do norte da Tailândia. Uma pequena cidade, constituida por imensos Wats e um impecável centro histórico. À excepção do templo no topo do monte tudo foi feito em modo stand still. Passeiei-me sem pressas pelo night market e pelos seus templos.
A maior parte do tempo estive parado. Resolvi ficar uns tempos a escrever alguns artigos e foi das esplanadas que vi esta cidade. Da que fica junto à porta da cidade velha, via o trânsito fluir. Os turistas passavam à minha frente, e, de vez em quando, via um ou outro nativo com o tradicional chapéu chinês. Daqui guardo a memória de um mendigo que me cravou uns cigarros. De tez morena, por um sol que não perdoa, e numa t-shirt e calções usados, pediu-me de forma simpática um cigarro. Algo que nunca recuso. E depois dinheiro. Algo que nunca ofereço. Nos dias seguintes sempre a mesma rotina, acompanhada de sorrisos companheiros. Eu ia para as minhas letras, ele seguia o seu peditório.
Da outra esplanada, mais no centro da cidade – a meio caminho entre a porta e o Wat principal – as vozes eram mais internacionais. Gosto de perceber a pose dos turistas e a forma como interagem com o que os rodeia. Uns trazem o sorriso de quem tem prazer na viagem. Outros a indiferença e arrogância de quem pica um ponto na sua to-do list. Por detrás, os empregados seguem a sua dança de encomendas e pausas. Depois de algum tempo cria-se uma cumplicidade própria. Sinto-me em casa, e eles fazem-me sentir dessa forma. Umas conversas, pequenas, reforçam essa partilha e sinto -me seguro por aqui...

Presto - Chiang Rai
Uma noite apenas. Esta foi a minha Chiang Rai. O ritmo foi elevado. Um belo pôr de sol por detrás de um templo. A vontade de encontrar um local para pernoitar. Uma saída rápida para o night market. Cheio de cor do artesanato vendido, som das músicas nas bancas dos DVD's e cheiro das comidas. Tudo me acompanhava. Queria apanhar tudo. Os sons, as casas e avenidas. Os risos e rostos. Estive apenas umas horas. Muito pouco para descrever algo. Mas esta foi uma cidade mais real e mais viva que as outras. No dia seguinte, enquanto abandonava a cidade, o meu coração ainda seguia o mesmo ritmo. Tão diferente dos outros que tinha sentido pelo norte deste país.

Wednesday, May 2, 2012

Le moi errant: Eat Pray Love... ou a diferença em mim


Uma companhia desde o início da viagem. A cada “devias de ler”, a minha curiosidade aumentava. Uma sugestão censurada pelo o meu “lápis azul” mental. Mas sempre que aquelas 3 palavras chegavam aos meus ouvidos ele perdia força.

E quando o livro sorriu para mim- numa livraria de aeroporto - acabei por aceitar o convite. Mal comecei a ler percebi o porquê de tantas sugestões. Era impossível escapar à comparação entre o que lia e o que vivia. Apesar das muitas diferenças, o espírito era idêntico. Ao ler este livro, dialogava com ele e foi aí que surgiu o meu espanto.
Não falava com a escritora com uma voz de admiração, mas de companheiro. Percebi a mudança brutal que tinha ocorrido em mim. Um passo que ainda não tinha sentido. Elizabeth era uma fellow traveller - tal como outras que conheci - e vivia no mesmo mundo de letras que eu agora vivo. Ainda reconheço a realidade e vejo as diferenças. Eu sou - no máximo - algo em potência e ela uma confirmação. Mas rompi as barreiras de admiração.
Percebo quanto nos auto-limitamos pela forma como construímos o mundo à nossa volta. Somos todos seres humanos. Feitos do mesmo sangue e alimentados pelas mesmas emoções. Não existe diferença entre o escritor e o leitor, o que viaja e o que fica. As barreiras construidas são nossas. Não do mundo que nos envolve. Tal como qualquer outra, assim que as destrois encontras um enorme - mas natural - percurso à tua frente...

História de uma foto: O sofá


“Psst... hey... tu aí... Sim tu! Aquele que se passeia pelas nossas ruas. Pára um pouco. Sei que não sou uma atracção, mas pára uns segundos... Viajar não é só ver os belos monumentos e andar pelas ruas limpas e turisticas... por vezes tens de parar e ver o que de belo existe no resto...
Hey... não olhes assim para mim... não sou apenas um velho sofá deitado fora... por mim passaram vidas, risos e sonhos. Ouvi o sussurrar dos adultos e dei conforto depois de um dia passado no mercado. Dei felicidade a quem se sentou aqui...
Quando ouvi a primeira palavra sobre um novo sofá estremeci... até soltei uma mola... mas percebi que tudo na vida tem um fim... e o meu não é mau. Olha à minha volta...vista para o lago... o verde... e a vida que se passei na outra margem... gozo o descanso da minha reforma enquanto os elementos da natureza me levam... aos poucos... até que não seja mais que uma simples memória na tua fotografia”