Sunday, December 4, 2011

Por debaixo do véu


Faz 32 anos que o Irão foi coberto pelo véu islâmico. Desde então tornou-se mais distante. Hoje pouco sabemos da realidade deste povo milenar. É nos alimentado uma imagem de religiosidade radical, um estado ditatorial e de um povo extremista. Um local fechado e desconfiado dos ocidentais. Não era essa a imagem que me tinham oferecido por quem já o visitou. Supremo curioso como sou, tive de descobrir o que se escondia por baixo do véu da minha ignorância.

Tehran

É barulhenta, escura e poluída. O rugido das suas motas dominam as ruas. Andam por todo o lado – inclusive pelos passeios – e atravessar uma passadeira é uma aventura imprópria para cardíacos. Mas esta cidade tem uma vibração que no mínimo não te deixa indiferente. Capital política, sente-se essa carga por aqui. Talvez num nível inconsciente. O melhor exemplo são os véus. Encontras um para cada personalidade. Apesar da obrigatoriedade, esta é desafiada por um véu que cobre apenas o fim do cabelo. Ou então é confirmado pelo tradicional véu, no qual nem uma ponta de cabelo vês. Uma dualidade muito presente por aqui.

Tive a sorte de conhecer um pouco mais da sua vida. Presente oferecido pela enorme simpatia de Mahdi. Compreendi que o “pitoresco” – trânsito – torna-se um inferno para quem vive cá. Pude ser um “revolucionário” e escrevi num dos inúmeros sites que este regime censura – o facebook. E terminei uma noite com um petisco (beterraba em calda doce) que se vê à venda um pouco por toda a cidade. Descubri também que a Europa é uma verdadeira fortaleza. Mesmo que seja apenas em turismo, tornou-se uma tarefa quase impossível arranjar visto se nasceste na coordenada errada deste planeta.

Em termos visuais não é uma cidade que enche os olhos. Entre o degradado e o composto, encontramos de tudo. Um “tudo” que vem embrulhado numa névoa de poluição e uniformiza a cidade. Um tom castanho acizentado apenas cortado pelos algo-coloridos placares das lojas. Só que esta cidade “esconde” algo muito especial. Apanha o metro e sai a norte. Tenho a certeza que ficarás com a boca aberta. A vista das montanhas Alborz é algo único. Talvez o melhor postal que Tehran pode oferecer. São autênticos gigantes de rocha e neve que vigiam esta cidade.

Mas Tehran tem mais para oferecer. A Praça Khomeini é o centro do movimento caótico e lojas de rua. Da mesma saiem importantes avenidas (como a Ferdosi, com as suas casas de câmbio e montras cheias de dólares). No meio, um placard do Iman deixa-me surpreendido com a semelhança entre ele e o Sean Connery. Devem confirmar isso com os vossos olhos. Muito especial para mim, foi ver o graffitti da estátua da liberdade com o rosto de uma caveira. Imagem icónica do anti-americanismo. Uma sensação estranha podê-la ver ao vivo, quase de tom agri-doce. Os mini-aquedutos que separam as estradas dos passeios são outro dos pequenos pormenores que nos é oferecido. Antigos canais que transportavam a água potável, são hoje locais por onde as chuvas pluviais correm. Com mais de 30 centimetros, rapidamente te habituas a ter cuidado com os mesmos. Se não te chamarem à atenção num primeiro momento, estou certo que ao primeiro susto de queda nunca mais te esquecerás.

Tehran é uma óptima introdução a este país. O sítio perfeito para começar a levantar o véu que o encobre. Para terminar, nada melhor que fumar shisha com amigos. O local com aspecto semi-clandestino, fez-me temer o que existiria por detrás da porta. Lá dentro um espaço pouco iluminado, preenchido por sofás cobertos de tapeçaria persa e umas horas de conversa.

Shiraz

“Desconfio que você queira ir para Persepolis...” diz-me um homem de tez morena e ar jovial. “será um adivinho?!” penso num primeiro instante. No dia anterior tinha deixado um periquito ditar o que Hafez tinha previsto para o meu destino. Ele é um dos poetas mais celebrados pelo Irão. Toda a casa deve ter uma cópia de Corão e de Hafez. E, tal como o Lonely Planet refere, desconfio que será mais fácil encontrar uma cópia da obra de Hafez. Existe o hábito de pedir um desejo, abrir o seu livro ao acaso e ver o que Hafez nos diz. À porta da sua campa, algumas pessoas têm um conjunto de versos, e, por uma pequena quantia, ficamos a saber o nosso destino – “fal” em persa. A campa em si é um local obrigatório para se visitar em Shiraz. Constrastando com o aspecto cru da cidade, a campa é um belo e calmo jardim.

“Você deve ser o motorista...” respondo-lhe. “Morteza” apresenta-se, entregando um cartão e um sorriso contagiante. Não poderia estar mais contente com quem me iria levar a Persepolis. Morteza é a personificação da simpatia persa. Gentil, educado e muito jovial. Pelo caminho – uma estrada que corta as montanhas e que por si só enchem os olhos – conta-me como é amigo de um outro Português, também João, mas neste caso, Pedro. Descreve as peripécias desse João e como ele ficou raptado pelo período “dos melhores 22 dias da sua vida” entre o Paquistão e o Irão.

Conta-me um pouco da sua história de 62 anos. De como era trabalhador da petroquímica no tempo do Xá. E de como, depois da revolução, se despediu por não conseguir trabalhar com os Mullahs. Vejo como esta revolução teve impacto na sua vida, e como nem sempre a “revolução” tem o melhor desfecho. Guia-me de volta à sua juventude e de como os aldeões conduziam os primeiros carros. Quando me explica que eles pensavam que o espelho retrovisor servia apenas para ajeitar o cabelo, não posso deixar de largar uma gargalhada sentida. É um verdadeiro contador de histórias, e pelas suas palavras viajo um pouco pelo país que já não existe. Ao chegar ao meu destino, ainda me acompanha até comprar o meu bilhete para Persepolis.

E este local, apesar de meio despido, é uma lembrança que esta é uma terra de grandes impérios. Da campa de Artaxerxes, percebe-se a escolha do local. Uma planície ampla é o cenário perfeito para o palácio de um grande império. Vagueio um pouco por aqui e por outros tempos. Imagino o que as comissões estrangeiras devem ter sentido ao entrar pela escadaria monumental à sua entrada. Do cimo, trompetas ecoariam, e demonstrariam, pelo som, a força deste império.

Após esta visita ao passado, vou para outra máquina do tempo: Naqsh-e Rostam. São os tumúlos gigantescos de Darius I, II, Xerxes I e Artaxerxes I. Apenas conseguimos ter a noção da sua dimensão quando observamos outro ser humano – sempre de aspecto minúsculo – a olhar espantado para o mesmo. Das várias inscrições uma parece um aviso ao limite que a Europa teve. Num baixo-relevo o rei persa segura pela mão o imperador romano, enquanto outro se ajoelha. Aqui foi Roma que prestou vassalagem a outro grande império.

Volto à companhia do simpático Morteza, enquanto regresso a Shiraz. Dá-me várias indicações sobre os belos locais que este país tem para oferecer. Explico-lhe que já vi o lindíssimo masoleu Aramgah-e Shah-e Cherag, ou que me perdi pelas misteriosas e infintas ruelas dos bazares desta cidade. Aí é impossível não deixarmos a imaginação nos guiar, enquanto passeamos à deriva. A tapeçaria é dominante, cortada pelas especiarias, perfumes e chás. Refiro-lhe que me falta apenas experimentar uma especialidade local – Faloodeh Shirazi, um gelado. Prontifica-se a me levar ao local que me tinham indicado. Uma gelataria por detrás do forte que domina o centro da cidade. Este forte, austero por fora, mas delisioso por dentro, marca o fim da Avenida Zand - estrada que corta toda a cidade. Despeço-me com um obrigado muito sentido e a certeza de que não poderia ter encontrado melhor pessoa para me transmitir o que esta cidade tem para oferecer.

Isfahan

O meu espírito retorcido tem destas coisas. O normal é começar o périplo iraniano com Isfahan (isto se não se quiser ficar em Tehran). Eu tinha de fazer ao contrário e terminar nesta cidade. E em bom momento o fiz. Isfahan é a pérola da Pérsia. Uma cidade com muita vegetação e um rio que a separa em duas partes (pormenor que salta à vista depois de passar tanto tempo sem ver água). A cruzar esse rio estão inúmeras pontes. Umas mais modernas, outras com um rico historial. As mais antigas – e as que gostei mais – são a Si-o-Seh e a Khaju. Ambas construídas no tijolo amarelado típico desta região. São pontes entre o norte o sul, entre a realidade e a imaginação. Belos sítios para ficar e contemplar a beleza do rio Zayandeh e das suas margens. É uma cidade que se passeia por aqui. Entre uma estrada de árvores, flores e arbustos encontramos algumas estátuas, recreios e máquinas de exercício. É algo imperdível.

Mas este corredor de arvóres continua pela avenida principal – Chahar Bagh Abbasi. Nos seus lados, o corre-corre normal das cidades iranianas. Trânsito, muitas lojas e cores e muito movimento. No seu meio, uma tranquilidade contrastante. Daqui chega-se à Praça Iman. Uma ampla e geométrica praça. Contém o que de melhor a Pérsia tem para oferecer: o bazaar a norte, a mesquita Iman a sul, a leste a mesquita Sheikh Lotfollah e a oeste o Palácio Ali Qapu. A sua beleza não está apenas nos seus monumentos, mas na forma como a sua decoração subtil, apenas rasgada pela lúxuria dos referidos, nos deixa num estado de tranquilidade. Por detrás desta praça está uma cidade que vive. Um cidade que corre e se movimenta. Aqui parece ter um ritmo mais calmo e ligeiro.

Um bom sitio para sair é pelo Bazaar. Local sempre propício à imaginação e à satisfação da nossa vontade de observar. Cada detalhe deixam-nos uma recordação que mais tarde nos irá fazer sorrir. E, mesmo perdido no meio das suas ruas fechadas, acabaremos por ir parar à parte mais antiga da cidade. Aqui o cenário é bem diferente da beira-rio. O amarelo desértico é dominante. Esta zona é constituída por inúmeras ruas estreitas em que nos apetece ficar perdidos. No entanto - e sob pena de perdermos demasiado tempo a chegar a algum lado - vale a pena não o fazermos com muita “intensidade”. Aqui existe outro momento “wow”. Trata-se da Mesquita Jameh. Uma verdadeira homenagem à evolução da arquitetura islamica. Por fora passa completamente despercebida. Mas uma vez lá dentro, o tempo é para contemplar todo o seu espaço.

Para completar a cidade nada melhor que ir ao quarteirão arménio. O caminho para lá leva-nos à extensa avenida Tohid. E por estes lados, o moderno convive com o clássico, as ruas amplas com os becos estreitos. Caminha-se e encontra-se as lojas que nos habituamos a ver noutros contextos (Apple, Adolfo Dominguez, Nike, Puma, Geox, etc...). Aqui têm um sabor diferente. É mais um sitio para onde deixarmos ir até onde os nossos pés aguentarem. Encontraremos numa loja, num sinal, numa flor, na cor de um prédio, ou no simples movimento natural da cidade, interesse suficiente para ficar.

Claro que tudo isto é embrulhado pela simpatia dos seus habitantes. E em qualquer oportunidade falarão contigo, ajudar-te-ão ou tentarão te compreender - mesmo que o máximo de palavras comuns sejam uma dúzia. Uma simpatia que guardarei sempre. Um enorme presente, talvez a maior pérola que podes levar contigo.

E por debaixo do véu...

…está um mundo que espera por ti. Cada cidade é unica. Guardo o movimento de Tehran, a simpatia de Shiraz e a tranquilidade de Isfahan. Saio com a sensação que irei voltar. Apenas levantei um pouco do véu. E nesse pequeno espaço encontrei, acima de tudo, uma riqueza nas pessoas que cruzaram o meu caminho...


Le Moi Errant: O início

Finalizo o meu primeiro mês de viagens com uma nova rúbrica. Desde já agradeço à Suzzanne e à Ana Salvador por me guiarem a este título. Procuro por aqui descrever a viagem interior que esta aventura também representa. Viajar tem tanto de olhar para fora como passear por dentro. Espero que gostem da mesma.

O início não poderia ser mais intenso. Foram muitas emoções, epísódios e momentos que me preencheram. É, mais que tudo, a fase de acomodar e de nos confrontarmos com uma nova realidade. Nesse sentido foi muito diferente do que esperava. Quer queiramos, quer não, criamos expetativas, idealizamos situações. A realidade é sempre diferente. E sei que por mais que tente passar para palavras o que vou vivendo, tal só poderá ser sentido quando viajado. Nesse sentido foi talvez a minha primeira surpresa, a diferença entre o ideal e o real.

Num primeiro momento tentamos concretizar o que sonhamos, ver o que pretendiamos ver, mas, no meu caso, tive de abandonar esse sentimento. O realidade é o que é, e mais que realizar o que sonhei, quero viver o presente. Foi difícil trocar a ânsia de ver pela calma de estar. Sei que estou a perder muito. Que muitos locais acabo por não ver. Mas também sei que tenho uma vida inteira para o fazer. Mais do que tickar uma lista de to-do's, pretendo encontrar a minha viagem.

É desconfortável a sensação de teres um mundo apetecível tão perto de ti e optares por não ires a todo lado. Mas viajar é também ir à procura do desconforto. Talvez seja isso que obriga um viajante a mudar por dentro. Luta-se contra o nosso instinto natural de protecção. E quando estamos num sitio confortável, já vamos para o desconhecido uma vez mais. Mas esta mudança, este desconforto, obriga o teu espírito a estar completamente aberto. Olhas com mais cuidado à tua volta. Sentes dentro de ti uma insegurança que acabas por controlar. Onde queres chegar é mais importante que esses sentimentos.

Sei que um mês é pouco para dizer que mudei, mas a realidade é que aconteceu. Hoje recordo-me já com um olhar algo distante. Ainda é uma mudança difusa e sublime. Algo não concretízavel, mas à mesma é uma mudança...

Monday, November 14, 2011

Ben Türk



Hoje é o último dia na Turquia. Na realidade, amanhã ainda estarei por cá, mas será passado em viagem. De Göreme para Ankara, e daí para Tehran. Sinto-me emocionado. Toda a experiência foi overwhelming. Mais que tudo, levo comigo as pessoas que conheci pelo caminho. Levo o companheirismo da Yuhsi, a simpatia do Zé, a simpatia da Sophie, a ideia do Harry, a abertura do Alejandro, o extraordinarismo de Volnei e da Pinar, a dica da Juliana, a conversa com o Quang e a hospitalidade do Chris. Um excelente arranque de viagem.

Mas a Turquia terá sempre a imagem de três pessoas: Eda, Naime e Özlem. Filhas desta lindíssima terra, foram a chave para abrir as portas deste país. Não existem palavras com que possa retribuir a simpatia, ajuda e hospitalidade que me entregaram. No fundo sinto que representam o que de melhor este país tem para oferecer: pessoas únicas, interessantes e envolvida num contexto histórico fenomenal.

São as suas pessoas que fazem da Turquia um grande país. Quer estejamos a passear pelas ruas estreitas de Istanbul ou a admirar a belissima paisagem da Cappadocia, são elas que transformam este local num sítio único.

Foram quinze dias espectaculares. Istanbul é um sitio vibrante. Não te deixa indiferente. Um palco imenso para a vida. Tanto no meio da confusão de um mercado, a passeares pela emblemática ponte Galata ou a apreciares o dia-a-dia numa das avenidas desta cidade encontras sempre uma multiplicidade de vidas. Diferentes passados, culturas e histórias convivem em harmonia. E sentes essa história não apenas nos monumentos ou estradas por onde andas mas, e principalmente, nas pessoas. Nas suas tradições e hábitos. Na sua forma de estar e interagir. É mais que tudo uma cidade real e que existe.

Cappadocia contrasta com esta agitação harmoniosa. Aqui encontras uma calma por entre os seus imensos vales. As pessoas em tudo são iguais. Ficas com a certeza que a hospitalidade é do país e não apenas duma região. Gosto muito como toda esta zona tem diversos ângulos. E se Istanbul é um mosaico cultural, este é um mosaico paisagista. Ambos entregam-te emoções forte. Gostei de me perder (mas não muito) por aqui, ou de encontrar aquele pequeno abrigo em que apenas a vida selvagem entra. E gostei de caminhar. Talvez seja algo genético. Estamos capacitados para andar, e, depois de uma vida sedentária, todo o meu corpo pedia para andar. Seguir trilhos como que chegasse a um porto de abrigo distante.

E eu apenas vi dois locais. Uma pequena amostra do que tem para oferecer. Descobrir este país foi uma dádiva. Sinto que o substimei muito. Procurei um local de transição e encontrei um espaço autêntico e acolhedor. E depois de uma tão boa recepção, sinto-me em casa. E de tanto me confundirem com um, hoje sinto-me também um pouco turco...

Tesekkür ederim por tudo

Hosçakal Turquia.

P.S. Amanhã é dia de viagem. Quando voltar a este espaço já estarei no Irão com outras aventuras para relatar. Se tudo correr bem volto a este espaço quarta-feira.

Sunday, November 13, 2011

Momentos

São milhares de coincidências – e pequenas escolhas – que fazem um momento. Neste caso, ir a pé até Ürgup (a 8 km de distância de Göreme) e uma demorada subida, levaram-me a este local. Um pequeno abrigo no cimo de um dos vales que rasga Cappadocia. Protegido do vento e bafejado pelo sol, encontro finalmente o tempo para admirar todo este mundo.
Lá em baixo, por entre as paredes despidas do vale, floresce a vegetação. Tenho a sensação de estar num pequeno jardim de éden. O Outono dá-lhe um tom acastanhado, onde o verde desponta aqui e ali. Não se ouve nenhum som de civilização. Apenas os pássaros e o vento a tocar nas folhas falam comigo. Reflito um pouco. É uma sorte estar aqui, neste momento, no meio de tão bela paisagem.
Sinto que a mesma me toca e me molda. De alguma forma estou diferente, mais calmo e centrado nos meus pensamentos. Não estranho que os cristãos otomanos tenham vindo para aqui. Toda a imensidão desta paisagem nos obriga à reflexão e nos torna humilde. Existe uma dualidade nesta paisagem. Cá de cima temos uma visão de montanhas vermelhas e suaves. Uma visão ampla apenas cortada pelos riscos brancos. Nesses riscos existe a monumentalidade tão retratada em fotografias. É um local exótico por se passear. Os trilhos levam-nos a vales curtos rodeados do branco caracteristico, a locais perdidos e túneis que parecem portais para um mundo de fantasia.
Aliás todo este mundo se assemelha a um mundo de fantasia. É fácil imaginar que, por entre os arbustos, irá sair um duende a qualquer momento. Ou que o som do vento, é a nave de Luke Skywalker a chegar. Mas também é o local perfeito para não pensar em nada. No meu caso, peguei no ipod e deixei que o shuffle determinasse a música do momento. É clássica. De repente as encostas tornam-se musicais. Como que esta provisse dos seus vales. Talvez seja o ondular das colinas que combine com os acordes desta música. Não sei. Nem me preocupo em encontrar o motivo. Deixo-me embalar e aproveito mais um belo momento...

Friday, November 11, 2011

Isto também faz parte da viagem...


Uma pessoa acorda sorridente e feliz da vida. A imaginar a quantidade de balões que vai ver quando abrir a porta do quarto e... está um dia cinzento e frio. Daqueles que só apetece ficar junto a uma lareira e não fazer nada. “Nada demais” penso enquanto desço as escadas para tomar o meu pequeno-almoço.



Altura de bomdiar o pessoal da estalagem. Neste caso apenas um, o Chris, um viajante suiço. Mas no caso dele a fazer uma slow trip – uma viagem de bicicleta à volta do mundo. Por enquanto está por aqui, neste trabalho, enquanto prepara o seu próximo destino. Para além do pequeno-almoço – tostas com manteiga e compota acompanhadas de chá – fornece-me também umas dicas sobre sitios que devo ver. Algo que acolho com muito gosto e que decido seguir.


Mochila nas costas e lá vou eu. O inicio é simples, uma estrada no meio de uma planície quase desértica. A meio sinto uma gota de água. “Estou a imaginar coisas...” digo para acalmar a minha preocupação crescente. Mas depois da primeira vem sempre uma outra, e quando o meu blusão começa a ficar molhado já não posso ignorar a realidade. Olho para a frente e vejo o céu carregado e nenhum abrigo. Uma simples chuva não me preocupa. Chuva, frio e vento já é outra história.


Decido, muito a contra-gosto, regressar à pequena aldeia turistica que é Göreme. Começou hoje a época baixa e por estes lados não existe muito que fazer. Decido retemperar o meu espirito com o melhor café latte do sítio (pelo menos é o que publicitam). O café é cosy e o latte é mesmo bom. Mais bem disposto, decido dar utilidade ao meu dia. Começo por comprar o meu bilhete de ida para Ankara e parar no supermercado para comprar algumas coisas que precisava. Dia de escrita e afazeres. Respiro fundo e tomo consciência do que tenho pela frente.


Entro na pensão determinado. Um dia tinha de o fazer, e apesar do frio, hoje é o dia: tenho de lavar roupa. Olho à minha volta e encontro um balde e alguidar. Essa parte está tratada. Agora é encontrar um sitio para pendurar abrigado da chuva. Saio para a varanda e encontro o cordel. No entanto está suficiente laço para se colar à parede, algo que teria de solucionar. Vou à mochila, e tiro do meu saco “macgyver” o cordel que trouxe comigo. Nó para aqui, ajuste para ali e em três tempos tenho o cordel da roupa bem esticado. Depois é altura da árdua tarefa. Faço-a com um sorriso no rosto.


Passo o resto do dia na pensão. Esta parece um abrigo de viajantes perdidos no deserto. Tem um charme difícil de explicar. Um empregado turco que fala pouco inglês e mal te liga. Um sistema de self service de bebidas em que somos nós que apontamos o que consumimos num papel disponível ao lado do frigorifico. E uma dessarrumação que nos faz sentir em nossa casa. Não sei o que é, mas gosto.


Apesar de não ter feito nada, chego ao fim do dia feliz. Afinal isto também faz parte da viagem. E apesar de não ter o glamour de outras actividades, sei que é um passo no caminho que iniciei onze dias atrás.


P.S. Agora rezo para que as roupas não congelem com este frio infernal (prevê-se temperaturas negativas)

Uma companhia muito especial...

“E como vais lidar com o viajares sozinho?” Pergunta recorrente sempre que falava da viagem. Respondia que, com a minha dupla personalidade, nunca estaria sozinho. No fundo, sabia que poderia ser complicado, mas acabaria por encontrar amigos pelo caminho.






Mas ontem foi especial. Tinha decidido caminhar pelos vales desta magnífica região. Como tinha acabado de chegar, e sem amizades criadas, estava preparado para o fazê-lo sozinho. Nada que me assustasse pois gosto de o fazer. Nem quinhentos metros volvidos e... já tinha companhia! De início estava um pouco assustado. Roxelana e Halide eram lindas, mas encontrá-las no meio do nada, e tão contentes por me verem, deixou-me de sobreaviso. Decidi dar tempo ao tempo e ver onde esta relação ia.


Os destinos eram o vale Rosa e Vermelho. Dois trilhos muito conhecidos e por isso perfeitos para mim. Inexperiente nestas andanças, convinha ir por onde existissem outras pessoas. Se acontecesse algo, estaria sempre perto de ajuda. Nem a Roxelana ou Halide me poderiam apoiar nesse caso. Com a decisão tomada, saio da estrada principal. Aventuro-me pelos trilhos que furam a cortina de rochedos à minha frente. E por espaços mais ou menos abertos, lá iamos em conjunto. Halide, de espírito mais independente e lutadora, seguia à minha frente. Roxelana, com mais compaixão, dava-me protecção atrás de mim. E heis que o vale se abre à minha frente. E que visão! Não pude conter um “wow”. É daquelas paisagens que te deixam sem ar. Não conseguia fazer mais que contemplar tudo à minha volta. Fiquei humilde com o que via.


Passado o momento de deslumbre, entro nestes vales. Passo por um café estrategicamente colocado no caminho. “Want a drink?” pergunta-me o dono. “No thanks” respondo-lhe com um sorriso. A minha vontade era andar por entre as encostas rochosas esculpidas pelo vento. Onde a vegetação conquista cada pedaço fértil. Tens em simultâneo a sensação de aridez e lúxuria. Estes trilhos são mesmo um palco perfeito para caminhadas. Neste caso, o aspecto Outonal permite-te estares mais centrado em ti. Depois de uma vida de stress e complicações. De dias agitados e emoções fortes. E após um arranque de viajem fantástico, pude finalmente fazer a pausa que precisava. Foi a grande oferta destes “Adamastores” cobertos de véus brancos: um tempo longe de tudo e um espaço contigo próprio.


E quando o cansaço apertou, foi altura de regressar. O Sol já se escondia por entre as montanhas e o frio aqui é implacável. Despeço-me uma última vez de Roxelana e Halide. Sem dúvida, foram as melhores amigas deste homem neste dia...

Thursday, November 10, 2011

Carta

Göreme, 09 de Novembro de 2011
Querid@ leitor(a),


Cheguei bem a Göreme. A viagem foi longa e um pouco cansativa. Mas acabou por compensar... Acordei para ver o belo nascer do Sol em Cappadocia. É uma paisagem vasta. O tom esbranquiçado do terreno combina na perfeição com os raios de sol matinais. Talvez seja por isso que a viagem de balão começa nesta hora do dia. E são tantos! Um autêntico postal vivo.


Ontem acabei por não fazer muito. Check in na pensão e parti para ver o Göreme Open Air Museum. Sei que vou utilizar muito esta palavra mas é mesmo bonito. Um complexo monástico forjado nas rochas desta região. Não é muito vasto, mas todo o local permite imaginar como seria a vida por aqui. E apesar dos turistas encherem as galerias – tornando a experiência um teste à paciência – por fora consegues ter uma excelente vista sobre o vale que se estende a partir de Göreme. A Capela Escura vale bem a pena as 8 liras adicionais. Os seus frescos parecem novos e daqui conseguimos imaginar a beleza que seriam as outras galerias. Apesar de proibido ainda consegui tirar algumas fotografias. Mais pela minha ignorância (e sorte) do que pela ousadia. Só à quarta fotografia é que o segurança (que tinha acabado de entrar) me avisou “no photos”. Fiz a minha cara 31 de turista ignorante e segui em frente.


O resto do dia foi mais calmo. Ainda parti à busca do pôr de sol, mas revelou-se uma tarefa impossível. Saí muito tarde do hostel e o momento fugiu-me. Sem problemas, pois acabei por encontrar a primeira pessoa que conheci na viagem: Yuhsi, de Taiwan. Coincidência do destino, também se despediu do emprego e está a fazer uma longa viagem pela Europa e arredores. Acabámos o dia com uma excelente conversa, daquelas que não conhecem horários.


Acabei por recordar todos os bons companheiros de quarto e amigos que conheci. Uma prova viva que a simpatia não conhece coordenadas. Partilhámos uns breves bons momentos, mas foi o suficiente para criar amizades, arranjar contatos e conhecer optimas histórias. Uma delas pareceu tirada de um filme romântico. Ele brasileiro, ela turca. Conheceram-se e falaram pela internet durante uma década. Apaixonam-se na primeira vez que estão juntos. É magia pura e vou torcer os dedos para que tudo dê certo. O Metropolis Hostel teve mesmo um vibe especial. E até o recepcionista, de aspecto cheguevariano e humor esquizofrénico (saltando de uma simpatia soviética para uma latina enquanto o diabo esfrega um olho), me parece uma personagem talhada para aparecer numa história qualquer.


É altura de me despedir. Vou precorrer os bonitos (lá está a palavra outra vez) trilhos que esta região tem para oferecer....

Contigo no meu pensamento, me despeço,

Um beijo e um abraço apertado,

Stran, o puto viajante

P.S. Não sei se reparaste, mas coloquei um link no blogue para o meu album de fotografia...