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Monday, May 28, 2012

De moto em Phonsavan


Existem sons estranhos. Todos os segundos os ouvimos. Na maioria nem reparamos. Mas o duma corrente metálica a tilintar é algo que desperta a tua atenção. Se vier acompanhado de um balouçar da mota em que estás, então todos os teus sentidos ficam despertos. Sorte que não era eu a conduzir e o episódio terminou com um simples tombo da moto. O som não era de corrente, mas do chassis da roda que se partiram e o balouçar foi motivado pelo pneu que se enrolou no eixo da roda.
Antes, a mota tinha servido para chegar ao primeiro sitio da Jar Plains. Uma planície cheia de Jarros de Pedra a uns quilometros de Phonsovan. Pela mesma podemos encontrar os vestigios das crateras de bombas que os americanos largaram, e ter uma pequena noção do que deve ter sido essa página triste da história da humanidade. Agora, com uma natureza irónica, os mesmos buracos de destruição estão cobertos por vegetação. Por aqui a floresta densa deu lugar a pastos verdes e toda a paisagem dá-nos uma sensação de calma. Para chegar temos de andar por ruas não asfaltadas, o que dá uma pitada de aventura ao percurso.A mota é a forma mais prática e livre de visitar estes monumentos. E de aproveitar para contemplar a beleza que toda esta região tem. Ou a melhor forma de... ficares parado no meio do nada.
Com uma roda naquele estado não restava mais nada que não fosse esperar que alguém nos trouxesse de volta à “civilização”. E o estar parado tem o condão de te permitir olhar para as mesmas coisas com outros olhos. Por aquela rua passava a vida diária de Laos. Os turistas nas minivans, os camiões de transporte de madeiras, as crianças que regressavam da escola. Em todos, aquele olhar surpreendido por ver um estranho por ali. E foram muitas as horas de espera. As suficientes para um sol preguiçoso se esconder atrás da paisagem.
Quando a minha “equipa de salvamento” apareceu, respirei de alívio. Não tinha de procurar uma outra solução e abandonar a moto. A meio caminho em direcção da cidade um último momento para selar com perfeição este dia. Uma pequena rapariga repara na mota e no estranho que vai no rickshaw e sorri. O meu olhar cruza o dela e sorrio também. Decido acenar com um adeus, ao qual ela responde com um sorriso maior, um acenar de adeus e uma corrida para me acompanhar...

Monday, May 21, 2012

Uma festa em Udomxai

“Onde podemos alugar bicicletas?” Uma simples pergunta com consequências inesperadas. Depois do almoço tomado, era altura de procurar uma bicicleta para explorar um pouco a região de Udomxai. A vila por si só não tem um grande atrativo. Mas por perto existem cascatas e grutas, e com tempo livre, apetecia expandir os nossos horizontes. No dia anterior, do topo de um espaço em que se encontra uma stuppa e um buda, podiamos contemplar um belo vale rodeado de montanhas sudestemente lineadas, que despertaram a curiosidade.
Mas era fim-de-semana e as lojas pareciam fechadas. A teimosia levou-nos a procurar soluções alternativas, pelo que aquela pergunta queria dizer mais “têm alguma bicicleta que possamos alugar?”. Motivo pelo qual tinhamos interrompido a festa que decorria no pátio da companhia de águas.
“No shop... close”, “Sorry... sorry... no bicicle” responderam-nos quando perceberam o que queriamos. E com isto viramos costas à procura de outra solução. Mas, mesmo antes de cruzar o portão, alguém chama por nós.
Com um sorriso amistoso, convida-nos para comer e beber algo. E com isso abria as portas da festa e, principalmente, as da simpatia e hospitalidade deste país. Depois... bem, depois existiu dança e karaoke. Muita cerveja. Risos, estórias trocadas e uma alegria genuína de nos ter por perto.
A magia desta partilha é impossível de passar por palavras. A cada Sabaidee Pi Mai (Feliz ano novo) molhado, o sorriso aumentava. Ali não existiam europeus e asiáticos. Apenas pessoas que partilhavam a felicidade de estarem vivas e a aproveitar mais um dia das suas vidas. Um dia que nunca me irei esquecer...

Sunday, May 20, 2012

Festa de Karaoke

“Anda” diz-me Magritte em jeito de desafio. Tinhamos acabado de jantar num restaurante de hotel, e não sabia muito bem porque me chamara. Ao chegar perto dela percebi que estava a existir uma festa por perto. Ouviamos a música e as pessoas a cantar. A curiosidade foi maior que a vergonha e acabámos por bater à porta.
E o que imaginámos ser um espaço comum, era na realidade um quarto onde um grupo de amigos estavam a fazer uma festa de Karaoke. Meio envergonhados, pedimos desculpa. Mas em vez de rostos chateados, fomos recebidos por caras sorridentes e um convite para participarmos. E no meio deste país tão belo, o nosso espirito apenas diz: “e porque não?”
Nas próximas horas - por entre cervejas e canções que não conseguia compreender - o tempo escorria para um momento intemporal. A alegria e a simpatia eram dominates. Muitos sorrisos e cantares. E no meio da confusão, aprendemos que se trata de uma recepção a um familiar vindo da Australia, que estava pela primeira vez em Laos. Como era o único que percebia inglês, tornou-se o nosso tradutor oficial e, nas horas que se seguiram, o nosso intermediário por entre os nossos costumes e a cultura festiva do Laos.
Quando nos despedimos, os meus olhos brilhavam e o sorriso rasgava o rosto. Esta forma de sermos acolhidos no meio de estranhos é algo único neste país. Algo que o transforma num espaço muito próprio e que se vai arrumando no teu coração...

Monday, May 14, 2012

Nova rotina


O mundo do viajante também é feito de rotinas. Umas pequenas – como arranjar a mochila – outras que ocupam mais tempo – como arranjar um quarto para dormir. Esta última começa sempre com um olhar que tem um toque de pasmo e outro de perdido. Por este mundo fora são muitos que assim chegam a um novo local.
Eu não estava diferente no primeiro momento de Luang Nam Tha. Talvez um pouco mais perdido que o habitual. Acabava de chegar a um novo país e esta era a minha primeira paragem. Pior, cheguei mais cedo. Quando saí do bus pensava que estava numa simples paragem. Um grupo de turistas despertaram a minha curiosidade: “o que estão a fazer aqui?” Pesquisei à minha volta e nos vidros das bilheteiras encontrava a mesma palavra repetida: Namtha... “Será a minha paragem? Luang Nam Tha?” Decido perguntar. E à terceira confirmação, percebi que era o meu destino.
O segundo passo desta rotina é perceber como se chega ao local dos hosteis. Esta era uma vila pequena demais para ter um mapa no meu guia. E à minha volta só existia... bem, nada. Tinha um mercado, autocarros e uma rua. Nada de tuc-tucs a tentarem vender um hotel ou o quer que seja.
Terceiro passo desta rotina: sair da estação. Com nenhuma opção que não seja a rua, a vida estava facilitada. Faltava escolher a direcção. À esquerda não via nada mais que a rua e os descampados que a envolviam. À direita... voila os tuc-tuc's e o grupo de turistas. Uma escolha fácil. Quando cheguei eles estavam em negociações. Também vão para a cidade, pelo que acabamos por ir juntos. A vila vai-se compondo consoante nos aproximamos do seu centro. Luang Nam Tha tem uma rua principal de onde, todas as outras desembocam. Quando estamos rodeados de hotéis e agências de viagens o condutor pára o tuc-tuc.
Altura de dar o último passo desta rotina. Pegar de novo nas mochilas e começar a bater à porta das guesthouses, com as seguintes perguntas:
“Do you have room?”
“How much?”
“Can I see it?”
Daqui seguem duas alternativas:
“ok, I'll be back if I don't find cheaper” que serve tanto para quando inicias a pesquisa e queres ter a sensibilidade do preço.
Ou então:
“Discount... discount?” que é utilizado quando já tens um quarto que te interessa.
No meu caso faço esta última pergunta com uma voz de pedido, mais do que exigência. Não sou bom a negociar, e esta é a melhor forma que arranjo. Para além disso, aqui a negociação é diferente da indiana. O simples recusar significa isso mesmo, e não que queres um preço muito mais baixo.
E desta forma que consegui o primeiro quarto em Luang Nam Tha. Uma guesthouse que fica um pouco fora da rua principal – normalmente mais baratas – com um aspecto... próprio para ficar apenas um dia. Com a chave na mão, chegava ao fim desta nova rotina. O último momento acontece com o suspiro final... mas, pensando bem, não é assim que terminam todas?

Sunday, May 13, 2012

Atravessar uma fronteira


Uma nova experiência. Atravessar a fronteira por terra... bem, neste caso, rio. Até agora apenas o fizera num aeroporto. Estava curioso. Ao chegar ao posto fronteiriço no rio Mekong não sabia o que fazer. Mas tudo foi fácil. Passaporte entregue, papel de saída preenchido e carimbo colocado. Estava oficialmente fora da Tailândia. Altura de descer a margem do rio e apanhar um dos barcos longos e esguios que estão à espera de passageiros.
Ao som do motor, arrancamos para um novo país. É uma sensação estranha. A de atravessar uma terra-de-ninguém cheia de água. Quando passo um rio, espero encontrar a mesma cidade ou cidades-irmãs. A sensação era a mesma e apenas a bandeira me dizia que era um outro país. Mas isso era apenas aparência...
Mal pus o pé na outra margem, senti que era diferente. Algo súbtil. Andei um pouco até ao posto fronteiriço. Sou recebido por rasgados sorrisos e apresentado à burocracia que compõe qualquer entrada num país. Uma pergunta torna-se impossível de responder: “where do you stay?” Pois... deveria ser fácil, mas desde que comecei a viajar que é comum ir para o sitio sem dormida marcada. Neste caso, nem sabia qual a cidade em que ficaria. Pergunto-lhe se tenho de preencher. Ele diz que não é importante. Com tudo resolvido é altura de pagar o visto...
“What? No euros?!”
“No euros... Dolars” responde-me. Vejo quanto tenho e não é suficiente. Olho em volta para tentar encontrar uma solução. Reparo numa cabine de câmbio vazia e pergunto:
“When does it open?”
“2 P.M.” lapidar, esta resposta... tal significa que teria de pernoitar por ali. Um atraso na viagem que não me apetecia ter.
“Other place?” pergunto, na vã esperança que ainda haja solução. Digo “vã” porque sou optimista. Outra solução resolver a seguinte charada: “No money, no visa. No visa, no money...”
“yes... ATM... end of the road.” responde-me com um simpático sorriso. “You can go to the ATM...”

Nem queria acreditar. Com aquela resposta, desatava o nó górdio que me encontrava. Foi assim que entrei pela primeira vez no Laos. Sem visto, desorientado e à procura de um ATM. Uma sensação estranha de ilegalidade e de entrar num país que parecia diferente do que já tinha experimentado até agora...

Monday, April 30, 2012

A sorrir...


Uma pessoa habitua-se às facilidades. Depois de ultrapassado o choque “cultural” de estar num país desenvolvido, as preocupações de comprar um bilhete de comboio esfumaram-se. Com toda a calma dirigi-me à estação de Ayuthaya. Parte do caminho foi feito de barco. Tempo para apreciar as casas de madeira e a pacatez das pessoas. O pôr-de-sol refletia na água e pintava tudo à sua volta. Eu sorria, contente com a minha sorte.
Ao chegar, sou recebido pelo cheiro intenso de comida. O estomâgo comanda-me para a confusão das refeições. Escolho um “clássico”: sticky rice e manga. Satisfeito, sigo para a pequena estação de Ayuthaya. O branco das suas paredes fazem-me recordar outras do meu país. E a ordem – ou desordem – quase me levam de volta a casa. Apenas os meus olhos e o cheiro a comida – existem barracas um pouco por todo lado – me dizem o contrário. Pergunta puxa pergunta e estou na bilheteira. Em menos de três tempos já o tenho na mão.
No dia seguinte - e com mais 18 kilos nos ombros - regresso. As letras escritas no quadro, perto do posto de informação, dizem-me que o comboio chegará a horas. Mas não existe horário que aguente a pontualidade tailandesa. Foi uma questão de tempo até que o pontual se transformasse em atrasado. Uma hora depois da prevista, lá chega. Com o bilhete na mão e o lugar memorizado entro para este animal metálico.
Mal estou no corredor, sinto um arrepio... não de frio mas de espanto. Já não estou habituado a tanto conforto e limpeza. Quase parecia um hotel de luxo. E com este olhar de espanto entrei para o meu compartimento. Os meus companheiros de viagem já tinham tomado o seu lugar.
E do espanto passei à curiosidade. Ao ver o tamanho do espaço, não percebia como poderia arrumar a backpack. Olhava para debaixo das camas e nada. Naquele quarto, de um branco imaculado, a minha mochila não tinha lugar. Ao ver a minha incapacidade, um dos meus colegas mostra o lugar das mochilas. De tanto viajar na India, esqueci-me qual era lugar normal: mesmo por cima da porta. Entre sorrisos e ajudas lá consigo colocar a minha pesada companheira.
Tempo para descansar e aproveitar a viagem. No meio deste confortável comboio, a paisagem ficou ainda mais bela. A caminho do norte, atravesso a montanha e a selva típica desta região. Não deixo de sorrir, enquanto os meus olhos bebem o verde das árvores, os ouvidos a sinfonia dos carris e os pensamentos flutuam para o mundo dos sonhos...

Sunday, April 15, 2012

What a Ride...

Chegamos da India convencidos que sabemos tudo. E com motivos para tal. É um dos países mais exigentes. Neste caso pensava que pouco me surpreendiria uma viagem de autocarro. Como estava enganado. Qualquer viagem no Nepal, faz parecer uma viagem na India algo luxuoso.

A melhor de todas foi a viagem que me transportou de Kathmandu para Syabru Besi na região de Lang Tang. Como todas, esta começa com a compra do bilhete. Uma pequena barraca junto de um autocarro é o sitio oficial de venda. O parque de autocarros é imenso e quase que parece constituir uma pequena cidade de autocarros, feira e muito pó. Com o bilhete na mão entramos para um daqueles autocarros multicoloridos que constituí uma imagem icónica. O meu lugar é mesmo por detrás do condutor e a idade do mesmo destroi a minha máxima de que “se o condutor faz isto há muito tempo e ainda é vivo é porque sabe o que está a fazer”. Nada que me preocupe. Sei que não tenho alternativa se quero ir.

A aventura começa logo à saída de Kathmandu, onde a serpente a que chamamos estrada começa. Nunca se pode atingir muita velocidade, mas os nossos sentidos dizem o contrário. Uma colina que parece começar debaixo do autocarro e uns saltos motivados pelas lombas do caminho é o suficiente para fazer disparar qualquer coração – por mais insensível que seja.


Lá dentro as pessoas ocupam os seus bancos, construídos à dimensão do Nepal. Aqui, é o primeiro país onde me sinto um gigante, e os meus joelhos competem por espaço com o banco da frente. Há falta de lugar, existe sempre o telhado, que acaba por transportar malas, pessoas e animais.

A banda sonora vai variando, entre música pop nepalesa e indiana. Ou pelo menos é o que a minha imaginação me diz, pois os meus ouvidos não conseguem distinguir a diferença. Tudo pacífico. O corpo habitua-se aos solavancos e o resto é alimento para os sentidos.

E quando pensava que assim seria até ao destino final, heis que um fumo vindo do motor e um motorista a gritar algo que não entendo lança mais emoção na viagem. E nem preciso de perceber nepalês para saber o que fazer. Se um motorista, no meio do fumo, pára o autocarro e sai do mesmo a gritar, eu faço exactamente o mesmo. Como eu, todos o fazem e rapidamente o espaço não é suficiente para sairmos ao mesmo tempo. Nada que um pouco de prática e empurranço não ajude a resolver. Em 5 segundos todos estavamos fora do autocarro a perguntar quanto tempo demoraria a o problema ser resolvido.
Mas como há males que vêem por bem, esta pequena pausa é suficiente para apanhar um pouco do ar. Já nos encontramos o suficiente alto para ter uma noção de montanha. Por entre cigarros, pequenas conversas e confirmação de que o problema ainda não está resolvido, o tempo passa rápido. E quando uma fila se começa a formar, o nosso autocarro ruge uma vez mais e retomamos o nosso caminho.

Depois veio as curvas e contra-curvas. Pelo meio mais uma paragem a pedido de um pneu furado. Desta vez nada que demore muito tempo. E enquanto o bus vai seguindo não deixo de ficar espantado com a paisagem. Por vezes parece que voamos. Na minha cabeça fica impresso a imagem do cobrador de bilhetes. Ele agarra-se à porta aberta e fica na posição de pendura. Por detrás dele é impossível distinguir mais que o pleno ar e as montanhas do outro lado da colina. Ele parece um falcão que acompanha por magia este autocarro. E eu, deixando-me embalar pelos solavancos, vou dormitando até chegar ao meu destino final, com um sorriso de quem fez uma difícil mas inesquecível viagem.

Monday, April 9, 2012

Holi Mess

Acordei ao som de crianças. Os gritos, risos e passos de corrida não enganavam: o Holi tinha começado. A criança que está em mim deu um pulo da cama e saio para ver. Quando olho para o conjunto de cores que voam nem quero acreditar. Embora fosse algo que sempre ambicionasse, não pensava ter a possibilidade de o festejar.

Holi festeja-se com cores, água e de vez em quando ovos. Festeja-se com muita alegria e sorrisos. É uma confusão multicolorida e não foi diferente em Pokhara. Existe algo neste festival que me seduziu de imediato. As cores são o mais simbólico. Mas são cores de emoções. Todos comungam o espirito jovial que o festival traz.

Preparo-me para entrar nesta confusão. Compro munições – um pacote com cada cor e uma garrafa de água – e liberto-me para o que vem. A cada “Happy Holi” uma cor é colocada no meu rosto e de quem se cruza comigo. Pela avenida principal existe uma parada em festa. Pessoas dançam, juntam cores, recebem água dos andares de cima. Naquele dia, tudo é confusão, tudo é alegria.

No final sou um ser multicolorido, igual a todos os outros que me rodeiam. Não existem nacionalidades, idades ou géneros. Esta confusão é sobre a partilha de um sentimento comum a todos: o de alegria. E que melhor do que espelhar essa alegria do que no azul, verde, amarelo ou vermelho vivo que compõe todo o cenário à nossa volta?

Sunday, April 8, 2012

De erro em erro até ser turista

Uma viagem não é feita sempre de decisões certas. Aliás os erros abundam. O meu teve muitos motivos. O cansaço de uma viagem, uma empatia desnecessária e uma precitipação de um sim antes de tempo.

Quando me sentei junto do meu “amigo nepalês” – agente turistico – queria-lhe dar um pouco de negócio. Julgo importante escolher a quem vou entregar o meu dinheiro. Assim - e como não tinha ainda a minha viagem orientada - não me parecia mal discutir um pacote turistico. E o cansaço que sentia, empurrava-me para aquela conversa. Depois de meses “on your own” não afastava a possibilidade de ter um pacote em que incluia tudo até Pokhara.

Claro que tal sensação deveria puxar todos os alertas que o meu corpo tem, mas estava anestesiado pelo cansaço. Quando o meu “amigo” me entregou o folheto, o grande interesse era saber se a viagem para Pokhara estava incluida - e se valia a pena dar algum negócio. Olhei para os preços, fiz uma pequena conta mental e pareceu-me um preço mais que justo. Não me custou nada dizer que sim. Uma vez mais, tudo me deveria dizer que algo estaria errado. Pelo menos toda a experiência que já acumulei me deveria prevenir para não me antecipar a aceitar algo sem saber tudo.
Como poderia esperar, o preço que tinha visto não era o correcto. Era o nepalês, e o meu era ligeiramente mais caro – quase o dobro. O cansaço voltou a ganhar, e no final achava que do estrago que não tinha sido mau. Tudo isto acabou por transformar a minha viagem. Sem que eu desse conta, passei num instante de viajante a turista. Com todos os sabores e dissabores que tal implica.

Vi Chitwa de uma forma diferente dos outros sítios que estive. Acabei por fazer tudo e mais alguma coisa. O que desejava e o que não desejava. Mas neste local acho que a minha alma queria ser um daqueles turistas que não se preocupa com nada. E quando saí de Chitwa estava de novo retemperado para prosseguir a viagem. Talvez mais do que antes. Sabia de novo a importância e alegria de fazer uma viagem como a que estou a fazer. De certa maneira foi necessário ir ao outro lado da moeda das viagens, para perceber um pouco mais de mim...

Monday, April 2, 2012

Momentos sem local

Ao longo da viagem encontras muito. Uma diversidade difícil de igualar. E se a palavra “local” é algo que acaba por aparecer quando o tema é viagem, a realidade é que vai perdendo a força inicial. E por vezes, quase que por magia, o local desaparece do vocabulário. Foi em Kathmandu como local fisico. Tinhamos à nossa volta os nepaleses e os seus monumentos. O ar era definitivamente desta cidade, mas nós não estavamos ali. Estavamos num momento sem local.

Aquele dia passado com o Nuno Cruz – de quem já falei aqui – foi passado em vários locais e vários momentos. Foi passado em emoções e sonhos. Na realidade actual e em projectos futuros. Foi um momento mágico, dificil de transformar em palavras.

A curiosidade era muita. Tenho acompanhado os seus passos por este mundo no seu blogue, e agora tinha curiosidade para estar com ele. Claro que encontrei o viajante – que ele também é – mas mais que isso encontrei um ser humano com uma enorme profundidade. Daqueles que são capazes de mudar o mundo pelas suas acções. E entre um bacalhau, um banco de jardim e um quarto, o tempo fugia ao ritmo das palavras que traziam muitos mundo.

Quando me despedi no aeroporto, ficaram as saudades de tempos futuros e a alegria sempre que te cruzas com uma pessoa especial. Agora os nossos caminhos desenrolam-se em direcções diferentes, mas sempre no mesmo mundo. Não um fisico, mas um de emoções e sonhos.

Sunday, April 1, 2012

Adeus India, Olá Nepal

Já não estava habituado. Depois de 3 meses no mesmo país, heis me de novo a preparar mais uma viagem ao “estrangeiro”. Voltava a sentir o nervoso miudinho no meu estomago. Como presente de fim de India, comprei a viagem de avião para Kathmandu via Delhi. Motivo pelo qual me encontrava no pequeno aeroporto de Dabolim em Goa.
Gosto de pequenos aeroportos. São mais compatíveis com o sentimento de viagem. Os internacionais são higienicos e pertencem a um mundo próprio. Poucas diferenças existem entre eles. Os pequenos têm mais caracter mas também menos para matar o tempo. Este apenas oferecia um café e uma pequena livraria para nos distrairmos. Enquanto olhava para a pequena colecção de livros a minha mente deambulava pelos os sentimentos de uma despedida. Uma viagem tão intensa como a indiana não desaparece com uma simples passagem de fronteira, pelo que preparava o meu corpo para receber o Nepal.
Mas isso ainda estava distante. Antes tinha de passar pela burocratica entrada na área dos viajantes, chegar a Delhi, esperar oito horas repetir tudo uma vez mais até poder chegar ao Nepal. Desde o primeiro dia – e único que utilizei o avião – que estes procedimentos necessários me espantavam. Para um país tão “organizado” como este, era impressionante os passos para atravessar um simples checkpoint.
Fazemos o check in como em qualquer outro país. Esperem... esqueci-me de dizer. Antes deste tens de passar a mala por uma máquina de raio-x - que “convenientemente” está num outro local. Se tiveres sorte - e nada que incomode os seguranças - então recebes um carimbo de aprovação. Claro que não foi o meu caso, e quando a minha mochila foi colocada à parte, já sabia que a vida não seria fácil.
“No lighters...” diz-me o segurança com um simpatico sorriso. Já estava à espera depois de ter perdido os meus quando cheguei à India.
“Is it ok now” perguntei, só para ter a certeza que não cometia nenhum erro ao pegar na minha mochila. Ele olha para o outro segurança, e apesar de não perceber hindi, consigo entender que ainda não...
“Do you have cameras?” pergunta que eu sinto como um punhal nas minhas costas. “sim...” respondo com hesitação. “...mas não faço a minima ideia onde... omg, vou ter de tirar tudo de dentro da mochila...” penso, enquanto a outra parte do cerebro tenta encontrar uma solução.
“Can I see the picture?” foi a que encontrei. Isso e rezar que não estivesse no pior sítio, o meio da mochila.
“Yes of course” e ao ver suspiro de alívio quando reparo que estavam no topo da mochila.
Com este problema resolvido, vou para o check in. Algo que não é complicado. Com a mochila no limite do peso – para meu espanto – é só dar o passaporte e receber o bilhete. Altura para mais uma burocracia: passar para a zona dos passageiros. Nada de especial... bem isto se a pessoa no check in me tivesse dado o papel para ser carimbado pela segurança do check point. Descubro essa falha depois de passar 10 minutos na fila. Altura de regressar ao check in, pedir a etiqueta e voltar a estar mais 15 minutos na fila.
Finalmente na zona de espera do meu avião. A partir deste momento tudo foi simples. Quando o avião levantou voo, parte de mim já se despedia da India. Faltava só a etapa de Delhi, uma noite passada no aeroporto. Mas como estava na India, ainda me estava reservado uma surpresa...
Logo à saída do avião tinha um sentimento estranho. Uma incompatibilidade entre o que a minha mente previa e os meus olhos viam. Algo que confirmei quando saí com a mochila do aeroporto doméstico. Não queria acreditar... Tudo limpo e organizado. Tudo tão... perfeito. Depois de três meses o meu corpo reagia com violência a esta dose de normalidade ocidental. Parecia que tinha regressado à europa.
Com a hora avançada - e o espanto para trás - procurava um lugar para pernoitar. O meu plano original era ficar no local de espera. Claro que fazer planos aqui apenas servem para falharem, e sou barrado à entrada do aeroporto internacional. “Too early” dizem-me enquanto sugerem que vá para uma outra sala de espera num dos cantos do aeroporto. Tento seguir a sugestão, mas antes de entrar na sala vejo um sinal informando-me que a permanência naquele local custava 70 rupias cada hora. Num assomo de avareza, penso que o limpissimo chão do aeroporto dá uma óptima cama.
Depois de encontrado um local agradável, lá me instalo. Bem perto de outros passageiros que tentam fazer o mesmo. A união faz a força, e nestas coisas não gosto de estar sozinho. E com um ajeite aqui, um encolhimento ali, já me sentia numa verdadeira cama. Era altura de poder sonhar...
“Excuse me...” acordo sobressaltado com este comentário. Era um policia. Por esta altura já consegui ler na sua cara o que me queria transmitir. Primeiro com uma cara mais rude - talvez a pensar que era indiano - depois com uma cara mais gentil quando ouve que sou estrangeiro. E de uma forma muito educada diz-me para sair dali e ir para a sala de espera. Eu explico-lhe que não quero pagar o dinheiro, e ele diz-me, para meu espanto, que apenas preciso de mostrar o bilhete.
Lá regresso ao local que tinha estado uma hora antes e o meu espanto não termina. Depois de vaguear à procura de um lugar, reparo que têm chaise longues para descansar. Enquanto vou ajeitando o meu corpo - e deixando-me embalar pelo sono - guardo os meus últimos pensamentos. Sorrio ao imaginar quão os turistas devem ser enganados com a chegada a este local, antes de enfrentar todos os desafios que a incrivel India tem para dar.
No dia seguinte, tudo foi mais mecânico. Talvez a ansiedade superava o dia de despedida. Com tudo programado, rapidamente me encontrava no meu lugar no avião. Olhava à minha volta, e os rostos das pessoas não enganavam. Estava a ir para um novo país. Os traços da asia oriental já penetravam as faces dos passageiros. Quando é anunciado que estamos a chegar, sinto de novo aquele arrepio de uma nova aventura. Era altura de cumprimentar um novo país.

Friday, March 16, 2012

Obrigado!


A India é... | x | ← colocar o adjectivo que quiserem escolher. Ele fará sentido. Percebo agora porque é que este país capta a imaginação de tantos, durante tanto tempo. Tentei descrever o melhor que pude mas isso é tarefa impossível. Apenas consegui transmitir uma pequena imagem, de quem apenas conheceu um pouco este país. Noventa dias neste país é o equivalente a um atomo de uma migalha do maior bolo do mundo.

Mas foi tanto o que aconteceu. Tanto que vi e senti. Fui empurrado para todas as emoções. E com isso cresci. E se esta sociedade é responsável por esse percurso, são os momentos partilhados e vividos que fazem o ritmo do meu coração aumentar e os meus olhos humedecerem.

Podia tentar imaginar, podia tentar planear, mas sei que seria impossível sonhar com melhor viagem que esta que vivi. E apesar de ser o actor que une todas as diferentes histórias, as verdadeiras estrelas – bem brilhantes neste firmamento – são as pessoas que tive o privilégio de conhecer. A todos, aos que nomeio e aos que omito por esquecimento, um enorme e muito sentido obrigado. Sei que na vossa vida fui um momento, ou uns dias, mas não imaginam como é estupendo estar deste lado e ver tanta riqueza humana passar pelo meu caminho.

De uma forma, ou de outra, estas são as pessoas que tornaram a India o que é para mim: um sitio mágico e que ficará tatuado no coração.

Agora que parto, recordo tantos momentos. A simpatia e gentileza do Sr. Bento em Panjim. A conversa doce com Mariah enquanto partilhavamos uma mesa ao jantar. O Manchester City de Ian (será este ano?), a escrita de artigos partilhada com Lisa. A despedida sentida de Serafin no seu Ordo Sounsar e a forma como LD me fez sentir em casa nesse espaço. Isto sem esquecer o eclipse partilhado com eles. E ainda por lá, encontrei a generosidade e simpatia de Tom que me oferecia a sua casa se passar por Munich.

Impossível esquecer a caminhada, conversa e personalidade de Oscar em Hampi. Ou o momento partilhado numa agência de viagem/bus stop perdida no meio de Hospet com Selina. A forma como Firoz se preocupava comigo na sua guesthouse em Cochin, enquanto um idoso cliente levantava todos os obstaculos possíveis.

Assim como levarei no coração o abraço de despedida em Munnar de Dotan, ou o reencontro com  Dani depois de Munnar. E ainda nos meus ouvidos, está a voz de Nadesh enquanto cantava no Echo Valley. Penso no café e a ajuda preciosa de Divya em Chennai. Café partilhado com os seus amigos e onde conheci a simpatia de Alex e a hospitalidade de Vinoth, viajante indiano, que fez questão de negociar a corrida de rickshaw para a minha tão aguardada viagem de comboio.

E como me senti entre amigos, numa estação de bus na companhia de Yogesh e seus comparsas em Mumbai. E existem momentos que são felizes coincidências. Como a de partilhar um poeirento autocarro com Jure. Uma viagem transformou-se numa daquelas conversas que nos levam a muitos lugares.

Claro que para mim o Rajastão estará sempre ligado a Hannah, que me ajudou a desbloquea-lo e com quem partilhei tantos momentos. Dificil de escolher um, mas agora que parto talvez escolha o pôr-de-sol, enquanto eramos “vedetas” para as camaras dos papparazi's atrás de nós. Uma imagem surreal como apenas a India permite. E deste estado guardo no coração a simpatia humilde de Badal em Khuri, algo que me tocou. Uma pessoa que parece transpirar rectidão e simpatia. Igualmente tocante foi a alegria e boa disposição de Kukki vivida enquanto cruzavamos as estradas rurais de Bundi. Aqui fiquei hospedado mesmo ao lado do restaurante de Chetna e Tony, um casal tão simpatico como bem humorado e que espero que um dia possam ir à europa e se tiverem por lá, que os possa ver em Portugal.  Foi também aqui que conheci maravilhoso Dustin com quem partilhei excelentes conversas à beira-lago. Mas sobre ele acho que me alongarei quando o visitar no seu país, o Vietnam.

E quando pensava que me restava apenas visitar os monumentos icónicos de India, heis que me é introduzida a vontade de aprendizagem e simpatia de Pramod em Varanasi. Ou então a hospitalidade e irmandade de Abid e Hassan em Kajuraho. Isto apenas para ser maravilhado por um dia que não estava nos planos com Fernando e onde pude reaprender a falar português, enquanto a nossa conversa saltava do inglês para o português, ao sabor do hábito e esquecimento.

E para terminar a viagem de forma perfeita heis que o meu caminho se cruza com o de Aurelie. E entre o sorriso inicial em Panjim e a despedida na bus station de Madgaon foram muitos momentos especiais partilhados, impossíveis de escolher num só momento.

E estes são apenas fragmentos de momentos partilhados com pessoas especiais. Uma humanidade de pessoas, que enriqueceram-me, fizeram-me feliz e mais que tudo preencheram o meu coração. A todos o meu mais amplo obrigado. Nunca vos esquecerei e espero reencontrar-vos nestes caminhos do mundo. 

Monday, March 12, 2012

10 Dicas para visitares a India


Está quase. Neste momento que escrevo faltam alguns dias para partir. Foi uma experiência brutal. Daquelas que te muda, e da qual já não regressas. É um outro estranho que sai da India. Mas antes de o fazer, queria partilhar umas dicas sobre este imenso país. Talvez vos possa ajudar quando decidirem a se aventurarem por aqui:

1 – Nenhuma dica faz sentido para a India

Esqueçam tudo o que direi. O mais certo é que não se aplique. E estando na India se calhar até se aplica.Confusos? Optimo. Então já estão a saborear um pouco da India. Esta é imprevísivel e pessoal. Será aquilo que tu és. O seu encanto é mesmo esse, o de nunca ser a mesma. Portanto estão mesmo por vossa conta.

2 – Tudo faz sentido e o seu contrário também

Talvez a caracterista que mais amei na India. Aqui a realidade é muito diferente da nossa. Estamos tão habituados a ter o branco, preto e um conjunto de cinzentos pelo meio, que ficamos confusos quando aqui aterramos. Aqui a realidade é mais quântica que linear. Por isso, não existe outra forma de a descobrires senão experimentares. O que parece ser sujo não o é. O pobre é rico e mais sábio que tu. Por isso vem com a mente aberta a algo que tu nunca viste.

3 – A letra P foi inventada para construir a palavra paciência e para a utilizares aqui

Se não tens, passas a ter. Se já tens, vais aumenta-la. A India não é fácil. Pode, se tu deixares, levar-te à loucura. Mas o segredo está mesmo aí: está tudo nas tuas mãos. Se quiseres encontrarás muitos motivos para te enervares. Transportes com atrasos, algo que combinaste mas não aconteceu ou mesmo aquela espera desesperante pelo empregado do restaurante. Mas por outro lado, podes tomar consciência dessa realidade e adaptares ao que está à tua volta. De qualquer das maneiras, traz uma boa dose de paciência, que será sempre importante.

4 – A India existe há milhares de anos e continuará a existir depois de saires daqui

Eu diria que é o Sindrome Ocidental. Passei pelo mesmo. No início tudo é esmagador. E enquanto estiveres em modo “ocidental” vai-te nascer uma vontade enorme de ajudar ou mudar esta realidade. Esquece isso. A India é mais antiga que qualquer nação europeia e já sobreviveu a basicamente tudo. Por isso devem estar a fazer algo bem. De qualquer forma, esta é uma sociedade com as suas regras, e não é no pequeno periodo que estás aqui que algo mudará.

5 – Cuidado com o que desejas

Esta é talvez uma das maiores dicas. Normalmente acabas por obter aquilo que desejas mas não da forma como tinhas imaginado. Assim tem muito cuidado com o que procuras porque de certeza que o vais encontrar.


6 – Existem todos os motivos para não funcionar, mas funciona

Isto é um dos encantos deste multi-país. Independente do que vês, as coisas funcionam. Muitas vezes parece pura magia. Pelo menos é o que penso sempre que olho para um poste de electricidade, ou quando estou no meio do trânsito. Por isso, e apesar do que todos os teus instintos te digam, podes ter a certeza que irá funcionar.

7 – Os indianos criaram a lei de Murphy e o seu antidoto

A lei de Murphy deveria chamar-se a lei indiana, tal é a propensão para algo falhar. Mas tendo eles inventado esta lei, também aprenderam a encontrar uma solução. Assim, mais que stressar o melhor é deixares as coisas fluirem até uma solução aparecer. E aqui o equilíbrio é a nota dominante. Não podes ser passivo nem demasiado activo. O truque está em descobrir os pontos que fazem as coisas acontecer. Lembro-me agora do dia em que mandei revelar as fotografias. Queria oferece-las às pessoas das aldeias por onde tinha passado. Mas só ia ficar um dia mais por isso sabia que estava a cometer um risco. Claro que o inesperado aconteceu e as fotos foram parar a outra vila. E na altura, em vez de me chatear e preocupar, basicamente fiz questão de lhe frisar a promessa que ele tinha feito. Três horas depois tinha as fotos na mão e um sorriso no rosto.

8 – Fácil é algo que não combina com India

Se andas à procura duma experiência fácil não venhas à India. E difícil é mesmo díficil. Por isso pondera sempre muito bem antes de decidires vir cá. A India pode ser a tua melhor, ou pior, experiência. Mas se estás preparado para isso (não realidade nunca o estás mas o que conta é que penses que sim), e se aceitares o que a India tem para dar, vais ter a experiência da tua vida.

9 – Só podes receber aquilo que dás

Talvez o maior presente que recebi, mas um que vos devo de avisar. A India é aquilo que tu és. Ou melhor, aquilo que tu dás. Nunca senti tanta reciprocidade como aqui. Se acordasse mal disposto e com uma cara menos amistosa, a India transformava-se em algo agressivo e dificil. Se estava com um sorriso rasgado então a India era algo magnifico. E nesse sentido a India é muito generosa. O que deres ela devolver-te-a 10 vezes mais. Mas isso é para tudo o que deres, seja bom ou mau. Começas a compreender que o que está à tua volta está nas tuas mãos, e acabas por iniciar uma viagem interior do qual regressarás de forma diferente.

10 – Prepara-te para os sorrisos

E esta é a maior dica de todas. Sei que as pessoas – e eu não serei diferente quando me perguntarem – têm uma tendência para alertar para o pior. Neste caso o lixo, a confusão, o hustle-hustle, as crianças a pedir, as casas de banho em público, etc... Mas isso é algo que tu ultrapassas num instante. O que te esmaga e te reduz ao ser mais insignificante - em que não és mais que uma massa gelatinosa em forma de ser humano - é o sorriso de uma criança. São brutais e vão-te desfazer tudo o que tens por dentro. Por isso – e apesar de saber que é impossível – prepara o teu corpo para receberes o poder gentilmente brutal dos sorrisos das crianças indianas...

Sunday, March 11, 2012

O Puto Viajante, o Líder e o seu Sol


Rezam as lendas que anda por aí um puto viajante com um rasgado sorriso. Um daqueles que se formam quando um sonho é realizado. Este acompanhou-o àquela já-não-tão-confusa estação de comboios em Agra. Ainda deslumbrado com o Taj Mahal, ia à procura do lugar da sua carruagem. Para seu espanto, esta estação tinha essa informação em placares electrónicos. Seguia atentamente a contagem decrescente. “S7, S6, S5, S4, S3, S2...” e a estação terminava nesse número de carruagem.

“É mesmo India” pensou enquanto olhava para a distância entre placares para descobrir o local em que a S1 – sua carruagem - se encontraria. Por esta altura já duas pessoas o tinham “mirado”. Ele, um calmo Che Guevara, ela uma estrela brilhante. “Deve ser argentino ou chileno” pensou o Che Guevara e decidiu abordar este puto viajante com o seu castelhano.

“Estas na coche S1?” pergunta que deixou o puto algo surpreendido.

“Si, mi coche is S1” Por esta altura o puto viajante tem uma certa dificuldade em manter uma conversa que não tenha uma ou outra palavra em Inglês

“Nosostros tanbien, donde es?” Um desbloquador de conversas tradicional entre viajantes.

“Portugal” respondeu o puto, para receber um sonoro “Ahhhh... Portugal!” que o deixou surprendido

“Nós vivemos em Portugal”  e agora foi a vez do puto largar um sonoro “Ahhh... Portugal!”. De imediato estabelecem uma ligação própria de povos latinos. A festa estava montada e os risos ouviam-se entre as palavras e emoções gesticuladas.

Eles apresentam-se. Chamava-se Líder e era equatoriano. Sua mulher era Sol e chilena. Depois de uma vida de viagens tinham parado em Portugal para criar familia. E agora, com ela criada, retomavam o prazer das viagens.

O comboio entretanto chegara, e depois do puto viajante fazer aquilo que todos os guias não recomendam: deixar a bagagem sozinha no seu banco, retomam a conversa largada. A palavra saudade voltava a fazer sentido, enquanto eles recordavam – e salivavam – pela comida portuguesa. E entre histórias de Portugal e experiências da India, o tempo ia passando.

Ele deixa-se encantar pela calma do Líder e a vida em Sol. Mas mais que tudo sente uma familiriedade quase esquecida. Uma de sorrisos e toques, de expressões e emoções entre palavras. Algo próprio de quem é latino. Está de novo em casa, e bebe as histórias de vida fantástica destes dois viajantes. Sente-se transportado para a latinidade daquela América e tem a certeza que essa parte da viagem irá tocá-lo profundamente.

Mas o coro de ressonos já cantava alto. Era altura de despedir. Um “até amanhã” partilhado e o puto tateava pelo corredor até à sua cama. Quando chegou descobriu a sua mala intacta e um sonoro companheiro como companhia. Nada que retirasse o sono, e foi com um sorriso que adormeceu...

Sunday, March 4, 2012

Bundi, um dia perfeito


Gosto de coincidências. Como quando descobri que o gentil homem que me aborda é Kukki.  Era minha missão encontra-lo. E aí estava ele a encontrar-me. Kukki é um arqueologista, boa pessoa e com disponibilidade para fazer uma tour pessoal pela regiões circundantes a Bundi. Uma excelente oportunidade de conhecer um lado tantas vezes vedado a um viajante como eu.

Conversa puxa conversa, e o meu dia de escrita é transformado em tour pelo countryside. Quando dou por mim já estou em cima da sua mota, a passear pelas radicais ruas indianas. Primeiro tenho de ir à estação de comboio comprar o meu bilhete de ida para Agra. Depois de uma paragem obrigatória na lateral da estrada por causa de um fitipaldi indiano, lá estavamos nós na estação.

O que parecia ser complicado, passa a ser simples – estava a espera de uma longa fila e muita confusão e encontro um balcão com duas pessoas à minha frente. E o que parecia simples transforma-se em complicado – demorou uma eternidade até chegar a minha vez, para descobrir que tenho de preencher um papel de reserva, para voltar à fila e aí poder comprar o meu bilhete. E com ele na mão partia descansado descansado.

O primeiro caminho é feito pelos campos agrícolas. Com um verde que muda consoante a colheita, mas que sempre transpira uma cor viva. Tendo vindo de zonas mais desérticas, estou mais sensível a esta imagem, e toda a região parece um pequeno paraíso. Paramos na primeira povoação, para tomar um Chai. Kukki cumprimenta todos com uma simpatia que parece contagiar toda a gente.
Todos saudam-me gentilmente, algo que tento replicar o melhor que posso. Apesar de não saber falar Hindi, fazem-me sentir como estando num grupo de amigos.

O sítio é destinado para pequenas paragens em viagem. Temos as bancadas de chai, mercearias e uma ou outra oficina mas mais nada. Mal tinha começado esta minha observação e já o dono do estabelecimento me dava uma chamuça para a mão, entregue num pedaço de jornal. Aceito de bom agrado e curioso para experimenta-la. Levo o primeira trinca à boca e esta reage de imediato. Sinto a picada rápida do picante. Tento ajeitar o melhor que sei a comida, como isso pudesse minimizar o picante. E lá para o final, entre sopros e narinas dilatadas – descobri que o meu ponto de tolerância é o de um nariz a pingar – confesso a Kukki: “hot... spicy...” Ao que ele replica, para meu espanto: “also for me”. Sorriu de alívio. Afinal 2 meses na India, já me deram alguma tolerância ao picante. Ele “refila” simpaticamente para o dono e sem dar conta já tenho uma nova chamuça na mão, desta vez com molho curdo – yogurte – que apazigua a minha boca. Termino a refeição com um clássico chai e muito sorrisos.

Com o estomago satisfeito, partimos. A próxima paragem é a casa do seu “irmão” mais velho. Irmão por amizade e convivência. Uma oportunidade para conhecer uma casa tipica do Rajastão. E aqui a experiência começa a ser mágica. Este povo tem uma simpatia que não te deixa indiferente. Torno-me modelo de turbante e fotografo-a-tentar-ser-profissional. Quando dou conta, já estou no pátio interior, que liga as divisões da casa, rodeado de crianças e adultos curiosos e satisfeitos por estar ali. Tento o máximo que posso para tirar boas fotografias, e cada vez que as mostro um coro infantil de risos e comentários junta-se à minha volta. Agradecem-me e eu agradeço. Lá fora vejo Kukki a sorrir para mim e a conversar com o seu “irmão”. O tempo passa entre sorrisos e timidez, entre comunicação gestual e rodas alegres de crianças. As “mães” estão tão bem dispostas como as crianças e parecem guardar entre-rugas uma jovialidade que refresca a alma e me recorda dos meus avôs.

Retemperado por este momento, partimos para visitar um templo, vida selvagem e um rio. Pelo caminho paragem para comprar fruta e visitar uma plantação. Coisas simples que dão outra cor a uma viagem. Lá chegados, o espanto não é só meu mas também de Kukki. Nas margens do rio – que nesta epoca é um conjunto de grandes poças – estão cerca de trinta pessoas. Aldeões nomádicos que estão a colher “water fruits”. Uma vez mais, a minha camara capta a atenção das pessoas e dou por mim a tentar apanhar o melhor que posso a beleza do momento. Este tocou-me especialmente. Não sei se foi a simplicidade do estilo de vida, a beleza do lugar, ou a simpatia envergonhada com que me abordavam, mas algo me prendeu aquele local. Pelo meio, e porque estava a ser um dia de sorte, um espetaculo de vida selvagem, com muitos passaros a pintarem o céu e árvores. Antes de partir, uma visita ao belo pequeno templo.

De novo na estrada, a paisagem muda radicalmente. O verde transforma-se em amarelo arido e rochoso. Pelo caminho fazemos mais umas paragens fotográficas – onde sou de novo recebido com uma simpatia desarmante – e outras obrigatórias pelo tráfico intenso de... gado. Aqui estamos dentro da India rural. Nas estradas rectilineas até perder de vista competem motas, camiões, tratores, vacas, cabras e ovelhas pelo pequeno espaço asfaltado. Tudo convivendo com naturalidade. O passado e o presente misturam-se e transformam-se na India que gostamos de conhecer. Acabamos por fazer mais uma pausa numa aldeia. Tempo para chai e pakora – fritos que retemperam a alma. E tal como na primeira paragem, sou adoptado por todos os membros do estabelecimento. O tempo desliza entre sorrisos, sentado nos bancos de pedra, e sobre a sombra de um telhado de palha.

E dentro desta doce melancolia, sigo para visitar as descobertas de Kukki: pinturas rupestres que abundam nesta região e que são um tesouro precioso que Kukki tenta manter. O cenário onde se encontram é belo: um rio que escorre entre as pedras arredondadas, pouso de vida selvagem. Pelas palavras entusiasmadas de Kukki, passeio-me pela pre-história e os momentos de descoberta até chegar ao difícil presente da manutenção deste espaço. Por aqui existem muitas minas ilegais, que dão sustento a familias e pedras a casas por este mundo fora. Parto com o desejo não confesso, de que o sítio sobreviva para outros terem o mesmo prazer que tive. Mas com a dúvida que tal seja possível.

Por esta altura o tempo voava e o Sol descia demasiado rápido. Altura para chegarmos ao ultimo destino. Uma aldeia típica da região. Kukki surra-me entre palavras que é constituída pelas pessoas mais humildes que conheço. Preparo a alma e coração, para o encontro. E vejo as suas palavras transformarem-se em realidade, por uma oferta de chai, os sorrisos de crianças e o convite a entrar dentro de uma casa. No meio a mesma alegria que tinha encontrado ao longo desta minha viagem. Uma existência cheia de coisas simples mas profundas, que parece guardar a essência do ser humano melhor que qualquer outra coisa.

Sinto-me esmagado, mas ainda com tempo para ser ouvido pelos deuses. Entre a viagem, Kukki pede a Deus que nos mostre “a little of wild life” e logo de seguida, para nosso espanto uma lebre cruza a estrada. Sem dúvida um sinal que Deus estava a ouvi-lo. Ele faz questão de agradecer efusivamente. Ainda paramos uma vez mais, para termos um vislumbre de uma catarata que parece desaguar num paraiso perdido. Uma maneira perfeita de completar o dia em que fazia 3 meses de viagem. 

Monday, February 13, 2012

Uma viagem de comboio


Foi com um enorme sorriso que recebi o bilhete. O mesmo que levei comigo para a estação de comboio de Chennai – Chennai Central. E apesar de não ser linda, tem a beleza própria destes locais: a das viagens e movimento. Das despedidas, abraços de chegada e pressa para chegar ao destino. Sinto sempre um nervoso miudinho quando estou para sair. Um nervoso que ia sendo consumido pelo tabaco até ter apenas um cigarro.

Com esta tarefa cumprida, entro no terminal. Descubro a minha linha, e sigo em direção ao comboio. Com o número memorizado, e tempo, a carruagem e o lugar foram encontrados com facilidade. Passo pela 2ª classe e percebo o porquê de não ser aconselhada para turistas. É impressionante como tantas pessoas cabem em tão pouco espaço.

Sigo para a minha carruagem, que é um enorme upgrade... ok não tanto assim. A grande diferença entre um e outro é que aqui tens espaço. E isso faz toda a diferença. Apesar da carruagem levar mais pessoas que os lugares disponíveis, é suficiente arejada para te sentires à vontade. Lá dentro tudo já foi branco e azul. Agora continua a ser mas camuflado pelo escuro do pó e antiguidade. As ventoinhas precisam de ajuda de um pente de cabelo para arrancarem. Um viajante, profissional destas viagens, lá consegue colocar uma a funcionar. Tenho alguns mosquitos por companhia, e penso se não será uma boa escolha fazer um upgrade. A 1ª classe já não me parece um luxo, mas uma necessidade.

Assim que o comboio arranca, entramos noutro mundo. Prepara-se as camas. Os encostos das cadeiras são levantados e agarrados a duas correntes, constituído assim a cama do meio. A de baixo era o local onde estavamos sentados, e mesmo lá em cima fica a do topo. O era a de baixo. Dois amigos indianos pedem-me para subir um nível pois viajam juntos. Algo que acedo sem problemas. Todos preparam as suas camas. Amigos discutem pelo melhor lugar, enquanto outros fazem a cama no chão. Passado uma hora já estamos todos deitados e uma outra sinfonia começa a superar a dos carris. A do ressonar. E o que até poderia ser um contra, alivia-me a consciência. Corre um boato – maldoso por certo – que ressono. Nestas coisas gosto de estar acompanhado. A minha alma repousa mais descansada.

Durante a noite, o maior problema é o frio. Sendo uma carruagem de metálica com pouco isolamento, a temperatura desce a níveis inimaginados para a India. Ao ponto dos meus neurónios não funcionarem mais e esquecerem-se que tinha um saco-cama. Passei parte da noite a tentar encontrar a melhor posição para manter o precioso calor. E jeito daqui, encolhimento dali, lá adormeço. Quando os primeiros raios de Sol tocam a carruagem sinto um enorme alívio. Com um novo dia, vem também uma nova animação.

Ao coro das conversas e ritos matinais, junta-se a voz dos vendedores de comida. Conhecemos a experiência de cada um pela convição e musicalidade com que apregoam os seus produtos. De refeições completas – com o delicioso cheiro a especiarias a acompanhar – a pequenos snacks, fruta, café, chá e até bijutaria, existe tudo. Transformando aquele corredor num bazaar idêntico a tantos outros.

E depois de 14 horas, o vício começa a apertar. Por esta altura já perguntava aos vendedores se vendiam tabaco. Mas todos me confirmavam o que já sabia: nas estações indianas não se vende ou consome tabaco. Com os sentidos mais apurados um conjunto preto e amarelo perto duma pequena estação chama-me a atenção. Da janela conseguia ver os rickshaws parados do outro lado da linha. Vou até à porta para confirmar a minha intuição: por perto estava uma daquelas pequenas barracas indianas, que serviram de inspiração para a mala do sport billy. Pergunto se o comboio ainda demora a arrancar. Recebo a confirmação. Olho para a esquerda, para a direita e desato a correr como a minha vida dependesse disso. Não era tanto com a vida que temia. O meu receio era que algum comboio chegasse e impedisse o meu caminho de volta. Bati um qualquer record de 50 metros obstáculos. E acredito que a velocidade com que disse “tabac, cigarrettes, tabac” era idêntica à dos apregoadores nos buses. Tabaco na mão e volto mais calmo. Não se ouvia nenhum comboio, e o meu ainda estava no mesmo sitio. Quando me veêm de tabaco na mão perguntam-me onde tinha arranjado. Conto-lhes a minha historia. Estranhamente, ninguém seguiu o meu exemplo.

Por esta altura, a carruagem já parece a minha pequena casa indiana. De um lado vista para a cidade. Do outro para o campo. Esqueço todo aquele sentimento de estranheza e vontade de mudança inicial. Quando adormeço, embalado por um belo pôr de sol, sinto que melhor casa era impossível...

Sunday, February 12, 2012

História de um bilhete de comboio...


“A tão ansiada viagem de comboio está quase!” pensei ao reservar o bilhete online. É impossível falar na India, sem imaginar uma viagem destas. O comboio sempre foi o meu transporte favorito. Não sou o único a gostar. Pelo menos, é um sexto da população mundial a partilhar o mesmo gosto neste país. E como rapidamente verifiquei, os bilhetes de comboio estão esgotados e acabamos numa lista de espera.

Optei sempre pelo bus. Era mais barato e flexível. Como não tenho nada planeado, a liberdade de chegar a uma estação de autocarros, entrar num e ser largado no destino final era apelativa demais para ser ignorada. Mas não queria fazer a transicção entre o Sul e o Norte de autocarro. A distância era perfeita para ir de comboio. Fiz a reserva com duas semanas de antecedência. Tinha 25 pessoas à minha frente. Algo que não me preocupava. Quase sempre obtem-se a confirmação nos últimos dias. Por agora a prioridade era visitar uma cidade apaixonante.

E heis que chega o penúltimo dia. Já estava um pouco nervoso. O maior problema era a incerteza. Não poderia marcar o hotel sem ter a confirmação. Com apenas 8 pessoas por desistir, tinha esperança em obter o bilhete. Nessa noite, e sem nada que pudesse fazer, fui beber um café com alguns amigos de couchsurfing. Decidi aproveitar o momento sem preocupações.

Começo com um sobressalto inicial. Dizem-me que já deveria ter marcado a estadia em Mumbai. Mas, conversa puxa conversa, e já tinha local para dormir por lá, ou, caso não partisse no dia seguinte, também em Chennai. Antes de ir para o hotel, verifico uma última vez o número na lista de espera. Já só faltam cinco. Acredito que vou conseguir.

Chega o dia do veredito. Esperava pela confirmação do bilhete. A listagem final de passageiros ficaria pronta quatro horas antes do arranque do comboio ao meio-dia.

9h00 - o meu estatuto não muda. Ainda tenho cinco pessoas à minha frente. Pior, a listagem ainda não está pronta.
9H30 - o meu estatuto muda para 2. O pior que me podia acontecer. Fico encurralado entre perder o valor do bilhete ou ir a correr para a estação de comboio de forma a não perder o comboio.
9H55 - nada muda. Por esta altura tento encontrar alternativas. No dia anterior soube que existem bilhetes – laklal – de última hora. Uma vez comprados ficam confirmados. O site está com problemas e não consigo inscrever-me para comprar o Laklal ticket.
10H00 - uma nova actualização diz-me que a listagem está a ser preparada. Continuo em número 2. Tudo se decide nestes minutos.
10h10 – o veredicto chega... no ticket for me.

Altura de procurar alternativas. O site da companhia de comboios já está operacional para comprar o Laklal. Formulários preenchidos, comboio encontrado e... Descubro que também têm lista de espera. Não queria um encore, por isso procuro à maneira antiga: através de um agente. O cybercafe onde estava vendia bilhetes de comboio. A comissão que pagaria já não parecia tão cara. No meio da conversa – e com a sorte de uma falha de energia – descubro que o agente faz a compra do bilhete online. E esse era um caminho que já conhecia o desfecho. Mas como estava na India, deixo a possibilidade em aberto. Tento uma ultima alternativa antes que a eletricidade retorne: comprar um bilhete na quota de estrangeiro.

Para isso tinha de ir à estação, e não sabia com o que contar. O Lonely Planet dizia que era eficiente. Mas eu estava na India, e essa expressão tem uma latitude enorme aqui. Depois de encontrar um rickshaw, perco uns minutos a negociar o preço da corrida. Algo que só Deus, Allah ou Ganesha sabem porquê. O que no dia anterior - com todo o tempo do mundo - aceitei sem grande hesitações, hoje era impossível de pagar. Acabou por compensar, pois consegui metade do preço mas com o triplo dos passageiros.

A estação é enorme e degradada. Como eu esperava. Mas tem um feeling que já tinha esquecido. O das viagens. Recuperava a paixão dos comboios, e por esta altura sabia que, custasse o que custasse, a viagem seria de comboio. Uma simples pergunta e recebo a indicação desejada. O local parece uma repartição de finanças semi-clandestina. Nova indicação e estava na sala desejada. Daqui até ter o bilhete na mão – e um sorriso no rosto – foram cinco minutos indianos. Quando saí daquela estação, o mundo deixou de ser o rodopio. Voltava à tranquilidade da minha viagem.

Na realidade nunca a tinha abandonado. Estas preocupações não são preocupações enquanto tiveres possibilidades em aberto. E essas, são tão grandes como a tua imaginação e sorte. E nesta sexta feira 13, ela voltava a sorrir para mim. Entregue pelas mãos de Divya.

Sunday, February 5, 2012

Uma cidade simpática


Chennai vale por si. Não sendo um highlitght cheguei sem expetativas. A melhor forma de encontrar uma cidade. O ritmo indiano deste local captou logo a minha atenção. Foi paixão à primeira vista, sem saber muito bem porquê. Olhava à minha volta e não existia nada de atraente. Muito lixo, e o cheiro a acompanhar. Prédios degradados, ruas esburacadas, e uma sinfonia de buzinas. Mas era isso mesmo que me apaixonava. Chennai era real. Não tentava ser mais que uma cidade. Gosto quando isso acontece. Quando as pessoas vivem na sua cidade. Por algum motivo sem explicação, umas são mais reais que outras.

Talvez seja por não ter nenhuma grande atracção. Mas não deixa de ser bela. Com sitios que se enquadrariam num belo postal. O complexo do museu governamental é um exemplo. Situado numa grande avenida – na realidade a avenida passa por cima da antiga estrada – este é um sitio encarnadamente belo. Os edificio são bonitos, e o espaço envolvente permite-te relaxar um bocado. Lá dentro as exposições valem o dinheiro que dás. Nada que te faça cair o queixo, mas gostas das estátuas, das histórias que aprendes, dos ossos, dos animais embalsamados, selos e quadros que tens oportunidade de ver. Se o museu não for suficiente, em pouco tempo estás na praia. Um quasi-contraste com o corre-corre de Chennai. O amplo lençol de areia nivela tudo e desafoga o teu olhar. Estás numa praia de uma grande cidade. Mas, mesmo assim. consegues ter a tranquilidade que só o mar te pode dar.

E embora possam dar boas fotografias e emoções, não são o maior highlight de Chennai. Esse é simplesmente andar pela cidade – algo que tentava explicar aos condutores de rickshaw enquanto recusava as suas generosas ofertas. Em Triplicane – zona do meu hotel – tinha a sorte de poder escolher amplas avenidas, ruas movimentadas ou laterais esguias. Decido pelas ruas movimentadas.

Os prédios variam entre construção colonial, casas tamilianas ou prédios modernos. Mas é perto dos passeios que o movimento atrai a minha atenção. Pouco utilizados pelos peões, servem para beber um chá, colocar a mercadoria, ou ficar sentado a fazer o seu trabalho. Depois destes, estão as bancadas de rua – com frutas, roupas, calçado, etc... - a competir com o estacionamento das inúmeras motas e rickshaws que deixam ou aguardam clientes. Logo a seguir, vamos nós – os peões – lutando por espaço com o trânsito que circula no meio da rua. E é nesta confusão de detalhes e estímulos, de cores e hábitos, que me sinto feliz. Mais do que um grande monumento, aprecio a mãe que cata a sua filha ou a mulher multicolorida a tirar água de uma fonte. Tudo compete pela tua atenção ao ritmo de uma grande cidade indiana.

Este seria o maior highlight, se não tivesse conhecido as pessoas. E são estas, em ultima análise, que fazem o local. Tornam-no belo. Logo no primeiro dia sorriram para mim. E continuaram a fazê-lo nos outros. Impossível terminar melhor do que a tomar um café com duas pessoas desta cidade. E por entre sorriso e conversas, transparecia uma enorme simpatia que diria Chennainiana.

Monday, January 30, 2012

A passagem de ano


Tempo de reflexão e votos - like. Dia de stress – dislike. Festa - like. Forçada - dislike. Esta é a minha relação com a passagem de ano. Sempre a desprezar, sempre a festejar. Em viagem não foi diferente. Durante uma semana batalhei para saber onde estaria a 31 de Dezembro. Até que me cansei. Toda a minha vida considerei-a uma festa sem muito sentido (embora seja bela). Agora que tinha oportunidade de escolher o que fazer, estava uma vez mais a cair na malha da preocupação de fim de ano. Um verdadeiro caso para ser estudado pelos cientistas.

Quando decidi seguir o meu caminho, indiferente ao dia, tive o meu momento de brilhantismo. Conseguia romper o ciclo vicioso desta data. Uma maldição que me perseguiu por 32 anos. Em vez de me preocupar com a passagem de ano, preocupei-me mais com os likes.

O primeiro foi passado à frente do computador a enviar mensagens. Depois, perto das 22 horas, saí do hotel para jantar. Escolhi um perto e que não tivesse programa de fim-de-ano. Queria algo com uma boa panorâmica sobre a cidade. Este era, como muitos outros por aqui, no topo de um prédio.

Encomendei a minha comida e deixei o tempo correr. Pelo meio trocava palavras com outras pessoas que estavam sentadas à minha mesa. Quando dou conta, sou o centro das atenções. Um dos poucos ocidentais naquele local. O ambiente é animado e de festa. Sente-se o crescendo da chegada do último minuto. Quando chega o momento é a festa total. Claro que aqui o momento de festejar começa uns 20 minutos antes da passagem de ano. Assim, festejei dez, entre abraços, risos e votos de bom ano.

Lá fora, o resto da cidade acompanhava-nos. Esta era iluminada pelo fogo de artifício. No meio destes festejos, as quatro torres do templo que furam o céu de Madurai continuavam serenas a observar tanta festa. Deixo-me contaminar pela sua calma e sigo o exemplo. Nas ruas, as pessoas pulam e dançam. Os mais aventureiros, têm na mão fogo-de-artifício com que iluminam a sua dança de celebração e dão um caracter mágico ao momento. Sinto-me feliz, não por ter passado mais um minuto no meu relógio, mas por estar naquele momento, àquela hora, a ver isto acontecer...

Sunday, January 29, 2012

De Munnar a Madurai


E ali estava eu. Sentado na paragem de autocarro de Munnar, a ouvir o meu novo “amigo” indiano. Tentava vender-me uma viagem até à fronteira com Tamil Nadu. Tinha perdido o autocarro, e o próximo só vinha às 13 horas, algo que não me atraia. Enquanto ele dizia o preço espetacular que me oferecia, pensava nas opções que tinha.

A primeira - a “oficial” para o meu “amigo” - era esperar até ao autocarro chegar. Essa viagem era apenas um terço do caminho, e tal significava que, com sorte, chegaria de noite a Madurai.. A segunda opção, era aceitar a viagem de 600 rúpias até à fronteira e continuar por bus o resto do caminho. Mas tinha acordado forreta e provavelmente esta custaria 10 vezes mais que o normal. A terceira opção seria apanhar um taxi até Madurai. Apesar do preço astronómico de 2600 rúpias, esta opção garantia que chegava ainda nesse dia ao meu destino.

Com as opções na cabeça deixava o tempo correr para ser menos “interessante” ao meus novos “amigos” - sim, por esta altura já tinha desperto a atenção de mais pessoas. O tempo cura todos os males, e neste caso todos os interesses. Meia-hora depois, já estava livre para confirmar as minhas opções e saber se o preço dado era o normal. Convém confirmar a informação por várias fontes. Uma verdadeira lição de bom jornalismo. Pelo caminho redespeço-me de Dotan e recebo a dica para apanhar o jeep colectivo que ia para a fronteira.

De volta à paragem, sigo em direcção aos jeeps. Encontro um que está quase a sair. “Onde me sento?” Pergunto para receber a resposta óbvia “aqui”. O “aqui” significa um dos bancos laterais da traseira do jeep, num espaço que parecia não “aguentar” mais uma pessoa. Quanto mais uma com duas mochilas de viagem. Mas neste país existe sempre espaço para mais um e lá se arranja um para mim, as minhas mochilas e uma pessoa mais.

Encolhido, e apenas com a ponta do pé a tocar o chão, lá me instalo. Olho à minha volta e todos os lugares parecem ocupados. Ilusão de principiante. Só porque os 6 lugares à minha frente estão ocupados por 6 pessoas tal não significa que o Jeep esteja cheio. Enquanto olho as pessoas à minha volta, apanho o sorriso de uma criança a admirar este ocidental. Algo que me conforta a alma, e que, por si só, valeria a viagem. Quando arrancamos, somos: um motorista, onze adultos, três crianças e umas quantas mochilas.

A viagem, pelo meio das montanhas, foi passada entre tentativas de não voar para o lugar à minha frente, aguentar o máximo de tempo sem me enjoar e a admirar a bela paisagem por onde passava. Esta era uma lufada de ar fresco na minha atribulada viagem.

Duas horas e muitas curvas depois, eramos sobreviventes. Por fim a fronteira entre estados. Tentávamos recuperar o sentido de orientação para a pequena caminhada até Tamil Nadu. Sorrio. Agora só faltava apanhar o autocarro para Madurai. Pelo menos é o que me tinham dito. Depois de consultar o polícia do posto fronteiriço, descubro que ainda tenho de apanhar um bus até outra localidade e só daí é que posso ir para Madurai. Enquanto aguardo pelo autocarro, reparo na beleza desta aldeia fronteiriça. A sensação é que estamos no fim do mundo à beira de entrar noutro. Pouco mais tem que uma estrada, a fronteira e as lojas de rua. Mas está no meio das montanhas e tem uma vista ampla sobre tudo à sua volta.

Ouço o nome da localidade para onde quero ir e o condutor dá-me indicações para entrar. É um taxi colectivo. Aceito o preço e entro no Embassador, um clássico. Apesar da lotação indiana, com o conforto e espaço que tenho, pareço estar numa limusine. Maneira perfeita de me despedir destas belas montanhas. À minha frente vejo a planície cheia de arrozais e palmeiras. Cenário que me acompanhará nos próximos dias.

Chegamos finalmente ao terminal de autocarros. A natureza é agora uma recordação. A substituir tenho a companhia do movimento e barulho desta pequena cidade indiana. Depois de algumas perguntas, encontro finalmente o autocarro. Entro e aguardo que chegue ao destino final. Pelo caminho, tempo para saborear o descanso e uma paisagem tão diferente da que tinha abandonado.