Thursday, December 8, 2011

Tempo de pausa

Viajar é ter várias geografias dentro de nós. Saímos de um sitio mas não nos desligamos de onde estivemos. Para quem escreve sobre a sua experiência isto pode-se tornar confuso. Estamos, durante uma fase, em vários sitios ao mesmo tempo. Cheguei à India depois de uma experiência marcante no Irão. E ainda estava a cultivar a minha paixão pelo cenário desértico e já me era apresentado um cenário de luxúria tropical. Aqui tudo explode de vida. O calor húmido impõe-se. Os pulmões enchem-se de oxigénio. Um verdadeiro contraste com o que tinha presenciado e me habituado.

O corpo - e a mente - fica sem saber como reagir. A quantidade de estimulos é tremenda e quase que existe a sensação de impotência. Perco o meu norte. Nunca tinha experimentado tal coisa. E como em tudo nesta viagem, estou a aprender a lidar com esta situação.

Sigo o conselho do meu corpo: é altura de uma pausa. De me deixar entregar à doce actividade de nada fazer. Viver sem preocupação a não ser a do momento. Sem outra intenção que não seja a de existir. Sem dúvida chegou o momento da minha primeira pausa. E tenho de admitir, a escolha do sítio foi perfeita. As praias de Goa chamam a isso mesmo. Dizem-me que está tudo bem. Para não me preocupar. A viagem ainda está no início e ainda existe muito para aproveitar. Mas isso é algo que fica para depois. Agora é tempo de uma pausa...

Tuesday, December 6, 2011

Onde está o meu livro?!


Na realidade o livro já não é meu. Falo do guia da Turquia. No último dia resolvi entregar a quem o podia dar uso. O meu único pedido foi que, assim que ele não precisasse, entregá-lo a outro. Em contrapartida quem o recebe fica encarregue de me enviar um mail para saber por onde anda o livro.

E não poderia encontrar melhor pessoa a quem entregar. Conheci Chris na gelada pousada de Göreme. Eu turista, ele estava ainda a trabalhar por ali. Mas este trabalho é apenas uma paragem no projecto que está a desenvolver. É que Chris também é viajante, mas um com um projecto inspirador.

O projecto chama-se All School Project, e o Chris anda a percorrer o mundo de bicicleta, indo de escola em escola, pedindo às crianças para desenharem casas para depois ir entregar esses desenhos às crianças de outras escolas noutros países. Uma forma simples de abrir canais de comunicação e melhor um pouco o nosso mundo. Sem dúvida um grande projecto, pelo qual o Chris e a equipa dele estão de parabéns.

Vão ao site, informem-se, apoiem, nem que não seja com um like na página de facebook do projecto. E claro, para quem estiver ligado a escolas e estiver interessado na ideia é só enviar um mail e entrarem em contacto com ele.

Quanto ao livro espero que ajude o Chris de alguma forma e fico curioso para saber a que mãos irá parar...

Dubai


Dubai apareceu na viagem como curiosidade zoolófica. Um oportunismo de uma viagem entre o Irão e a India. Queria conhecer esta polis criada no meio do deserto.

Logo no aeroporto tive a noção de que estava num mundo muito diferente daquele donde vinha. O cenário amplo e polido do hall do aeroporto transmitia-me a sensação de estar num hotel de cinco estrelas. Por momentos até poderia imaginar que estava numa qualquer cidade europeia. À minha volta não existia um véu e tudo parecia organizado. Claro que o check point da alfândega, com o seu aviso a determinadas regras de conduta, fez-me voltar à realidade.

Como tinha pouco tempo, acabei por escolher fazer uma das atracções da cidade. Neste caso o Burj Al-Khalifa, maior prédio do mundo. Já que fosse para fazer algo, que fosse algo apenas possível no Dubai. E tomo consciência que este deve ser o pensamento dominante. A sensação é de que as pessoas quiseram criar um sitio único, uma experiência unica. O que conta é ser o mais ou o maior. Coisas que o dinheiro possibilita.

Depois de sair do funcional metro do dubai, tenho a minha primeira visão sobre este lança apontada ao céu. Impressiona, como impressiona a quantidade de prédios ainda a serem construidos. Ao lado das residências encontro monstros de betão e vidro. Passo pelo Armani hotel – luxo, luxo, luxo - e sigo a asseada rua que me leva ao Dubai Mall – o maior do mundo – porta de entrada para a escalada.

Lá dentro, a modernidade saúda-me. Esqueço a minha faceta de simples viajante e vagueio-me como turista. Afinal, aqui é o que sou. E com o bilhete na mão lá vou sorridente para o elevador. É a primeira vez que subo a um arranha-céus. Tenho curiosidade de descobrir qual a sensação. Um homem vestido de árabe mostra-me o caminho. Partilho o elevador com outros turistas, e quando a subida começa, sinto que não é um elevador qualquer. Quer a pressão nos ouvidos, quer a contagem vertiginosa dos andares, dizem-me que este consegue atingir uma grande velocidade. Chegado ao topo, tenho uma ampla visão dos emirados. Um cidade plantada entre o deserto e o mar.

Não consigo deixar de ter a sensação de uma cidade artificial. Algo construído para satisfazer o ego de quem a criou. E apesar de todo o luxo, toda a modernidade e toda a perfeição sinto que esta cidade não pertence aqui. Quase que parece o recreio de seres humanos cheios de dinheiro. Desço uma vez mais pelo elevador. Sigo direto para a rua. Já vi o que tinha a ver. O momento é para estar um pouco a observar todo o luxo antes de regressar ao corre-corre da viagem. Não dou o meu tempo por perdido. Julgo que é necessário ver isto. Ver todo o luxo o que o dinheiro pode comprar. Acho que só assim se pode compreender melhor a natureza humana.

Mesmo antes de partir, um bom momento. No aeroporto um árabe despedia-se da liberdade do Dubai o melhor que podia. Celebrava efusivamente os ultimos momentos enquanto trocavamos umas palavras. Descubro que a vontade de liberdade é cada vez mais comum por estes lados...

Sunday, December 4, 2011

Pela tua mão...


Pela tua mão encontro algo único. Estou cego, mas a tua mão gentil guia-me. Ouço vozes e sei que estou num sala. Sinto as rugas da tua mão. Está marcada pela experiência de uma humanidade. Sei que posso confiar. Decido deixar-me ir e descobrir o que me queres mostrar. Sento-me e a palavra “chay” já me é familiar. Sinto o montar de algo à minha frente. O som metálico a bater na madeira prova-me que estão a colocar uma mesa. Tu guias-me até lá. Obrigas-me a abrir a minha mão e descubro o que pretendes: oferecer um tecido.

Ao primeiro toque, noto o aveludado de uma simpatia persa. Aquele conforto que encontrei no café tomado na companhia de um contador de histórias. Ali, no meio do nada, apenas os carros quebravam a nossa conversa. Nesse momento, não existia um turista e um guia. Eramos dois seres humanos a partilhar uma boa conversa e um café que aconchegava a alma e expulsava o frio do corpo.

Prossigo para ver que outros pedaços de tecido me ofereces. Este é mais àspero, quase agressivo. Sinto que não quer que lhe toque. A minha mão está a mais. Como eu na manifestação que celebrava o aniversário da polícia que controla a moral. Era na bela praça Khomeini em Isfahan. A mesma que uns dias antes me tinha acolhida tão bem. Agora o véu negro, como o preconceito, cobria as mulheres e os camuflados fardavam os homens-meninos. Era uma festa que não partilhava e expulsei-me dessa praça.

Levas-me para o próximo pedaço de tecido. E agora é tão diferente. Tornou-se leve. Deixa passar o ar fresco e confortante de uma conversa à beira rio. Livre de preconceitos ou morais. Um momento intemporal e sem geografia. A não ser a dos nossos sonhos e emoções. Por aí senti uma vez mais a hospitalidade das pessoas que vivem cá. Algo que me tocou com toda a profundidade. Que humildemente agradeço com a certeza de não conseguir retribuir tão generoso presente.

Já não preciso que me guies. Prossigo sozinho, com vontade de descobrir o que mais existe. Sinto que ao passar a minha mão por este novo pedaço, o tecido emite um som especial. Tão especial como ouvir o chamamento para uma oração dentro da Mesquita Iman. Passeio-me sozinho pelos seus amplos claustros e o som torna-se transcendental. A melodia daquelas palavras não chega aos meus ouvidos mas à minha alma. É poesia encarnada no som. Sinto-me elevar para um outro estado, para uma outra consciência. Passeio-me com a melodia na minha cabeça e apenas desperto para o som da flauta que toca no salão musical do palácio Ali Qapu e me embala para outro momento de contemplação.

Penso que mais belo tecido não poderá existir e eis que a minha mão toca um último pedaço. Não tenho palavras para o descrever. É do mais puro que pude sentir. Mexeu comigo. Mudou-me. Tremo a pensar nele. Seria um crime, neste estágio, tentar fazê-lo...

Recupero por fim a minha visão. Vejo o que a minha mão sentiu. Um tecido completo de momentos, bordados na perfeição num país a que chamamos Irão.

Por debaixo do véu


Faz 32 anos que o Irão foi coberto pelo véu islâmico. Desde então tornou-se mais distante. Hoje pouco sabemos da realidade deste povo milenar. É nos alimentado uma imagem de religiosidade radical, um estado ditatorial e de um povo extremista. Um local fechado e desconfiado dos ocidentais. Não era essa a imagem que me tinham oferecido por quem já o visitou. Supremo curioso como sou, tive de descobrir o que se escondia por baixo do véu da minha ignorância.

Tehran

É barulhenta, escura e poluída. O rugido das suas motas dominam as ruas. Andam por todo o lado – inclusive pelos passeios – e atravessar uma passadeira é uma aventura imprópria para cardíacos. Mas esta cidade tem uma vibração que no mínimo não te deixa indiferente. Capital política, sente-se essa carga por aqui. Talvez num nível inconsciente. O melhor exemplo são os véus. Encontras um para cada personalidade. Apesar da obrigatoriedade, esta é desafiada por um véu que cobre apenas o fim do cabelo. Ou então é confirmado pelo tradicional véu, no qual nem uma ponta de cabelo vês. Uma dualidade muito presente por aqui.

Tive a sorte de conhecer um pouco mais da sua vida. Presente oferecido pela enorme simpatia de Mahdi. Compreendi que o “pitoresco” – trânsito – torna-se um inferno para quem vive cá. Pude ser um “revolucionário” e escrevi num dos inúmeros sites que este regime censura – o facebook. E terminei uma noite com um petisco (beterraba em calda doce) que se vê à venda um pouco por toda a cidade. Descubri também que a Europa é uma verdadeira fortaleza. Mesmo que seja apenas em turismo, tornou-se uma tarefa quase impossível arranjar visto se nasceste na coordenada errada deste planeta.

Em termos visuais não é uma cidade que enche os olhos. Entre o degradado e o composto, encontramos de tudo. Um “tudo” que vem embrulhado numa névoa de poluição e uniformiza a cidade. Um tom castanho acizentado apenas cortado pelos algo-coloridos placares das lojas. Só que esta cidade “esconde” algo muito especial. Apanha o metro e sai a norte. Tenho a certeza que ficarás com a boca aberta. A vista das montanhas Alborz é algo único. Talvez o melhor postal que Tehran pode oferecer. São autênticos gigantes de rocha e neve que vigiam esta cidade.

Mas Tehran tem mais para oferecer. A Praça Khomeini é o centro do movimento caótico e lojas de rua. Da mesma saiem importantes avenidas (como a Ferdosi, com as suas casas de câmbio e montras cheias de dólares). No meio, um placard do Iman deixa-me surpreendido com a semelhança entre ele e o Sean Connery. Devem confirmar isso com os vossos olhos. Muito especial para mim, foi ver o graffitti da estátua da liberdade com o rosto de uma caveira. Imagem icónica do anti-americanismo. Uma sensação estranha podê-la ver ao vivo, quase de tom agri-doce. Os mini-aquedutos que separam as estradas dos passeios são outro dos pequenos pormenores que nos é oferecido. Antigos canais que transportavam a água potável, são hoje locais por onde as chuvas pluviais correm. Com mais de 30 centimetros, rapidamente te habituas a ter cuidado com os mesmos. Se não te chamarem à atenção num primeiro momento, estou certo que ao primeiro susto de queda nunca mais te esquecerás.

Tehran é uma óptima introdução a este país. O sítio perfeito para começar a levantar o véu que o encobre. Para terminar, nada melhor que fumar shisha com amigos. O local com aspecto semi-clandestino, fez-me temer o que existiria por detrás da porta. Lá dentro um espaço pouco iluminado, preenchido por sofás cobertos de tapeçaria persa e umas horas de conversa.

Shiraz

“Desconfio que você queira ir para Persepolis...” diz-me um homem de tez morena e ar jovial. “será um adivinho?!” penso num primeiro instante. No dia anterior tinha deixado um periquito ditar o que Hafez tinha previsto para o meu destino. Ele é um dos poetas mais celebrados pelo Irão. Toda a casa deve ter uma cópia de Corão e de Hafez. E, tal como o Lonely Planet refere, desconfio que será mais fácil encontrar uma cópia da obra de Hafez. Existe o hábito de pedir um desejo, abrir o seu livro ao acaso e ver o que Hafez nos diz. À porta da sua campa, algumas pessoas têm um conjunto de versos, e, por uma pequena quantia, ficamos a saber o nosso destino – “fal” em persa. A campa em si é um local obrigatório para se visitar em Shiraz. Constrastando com o aspecto cru da cidade, a campa é um belo e calmo jardim.

“Você deve ser o motorista...” respondo-lhe. “Morteza” apresenta-se, entregando um cartão e um sorriso contagiante. Não poderia estar mais contente com quem me iria levar a Persepolis. Morteza é a personificação da simpatia persa. Gentil, educado e muito jovial. Pelo caminho – uma estrada que corta as montanhas e que por si só enchem os olhos – conta-me como é amigo de um outro Português, também João, mas neste caso, Pedro. Descreve as peripécias desse João e como ele ficou raptado pelo período “dos melhores 22 dias da sua vida” entre o Paquistão e o Irão.

Conta-me um pouco da sua história de 62 anos. De como era trabalhador da petroquímica no tempo do Xá. E de como, depois da revolução, se despediu por não conseguir trabalhar com os Mullahs. Vejo como esta revolução teve impacto na sua vida, e como nem sempre a “revolução” tem o melhor desfecho. Guia-me de volta à sua juventude e de como os aldeões conduziam os primeiros carros. Quando me explica que eles pensavam que o espelho retrovisor servia apenas para ajeitar o cabelo, não posso deixar de largar uma gargalhada sentida. É um verdadeiro contador de histórias, e pelas suas palavras viajo um pouco pelo país que já não existe. Ao chegar ao meu destino, ainda me acompanha até comprar o meu bilhete para Persepolis.

E este local, apesar de meio despido, é uma lembrança que esta é uma terra de grandes impérios. Da campa de Artaxerxes, percebe-se a escolha do local. Uma planície ampla é o cenário perfeito para o palácio de um grande império. Vagueio um pouco por aqui e por outros tempos. Imagino o que as comissões estrangeiras devem ter sentido ao entrar pela escadaria monumental à sua entrada. Do cimo, trompetas ecoariam, e demonstrariam, pelo som, a força deste império.

Após esta visita ao passado, vou para outra máquina do tempo: Naqsh-e Rostam. São os tumúlos gigantescos de Darius I, II, Xerxes I e Artaxerxes I. Apenas conseguimos ter a noção da sua dimensão quando observamos outro ser humano – sempre de aspecto minúsculo – a olhar espantado para o mesmo. Das várias inscrições uma parece um aviso ao limite que a Europa teve. Num baixo-relevo o rei persa segura pela mão o imperador romano, enquanto outro se ajoelha. Aqui foi Roma que prestou vassalagem a outro grande império.

Volto à companhia do simpático Morteza, enquanto regresso a Shiraz. Dá-me várias indicações sobre os belos locais que este país tem para oferecer. Explico-lhe que já vi o lindíssimo masoleu Aramgah-e Shah-e Cherag, ou que me perdi pelas misteriosas e infintas ruelas dos bazares desta cidade. Aí é impossível não deixarmos a imaginação nos guiar, enquanto passeamos à deriva. A tapeçaria é dominante, cortada pelas especiarias, perfumes e chás. Refiro-lhe que me falta apenas experimentar uma especialidade local – Faloodeh Shirazi, um gelado. Prontifica-se a me levar ao local que me tinham indicado. Uma gelataria por detrás do forte que domina o centro da cidade. Este forte, austero por fora, mas delisioso por dentro, marca o fim da Avenida Zand - estrada que corta toda a cidade. Despeço-me com um obrigado muito sentido e a certeza de que não poderia ter encontrado melhor pessoa para me transmitir o que esta cidade tem para oferecer.

Isfahan

O meu espírito retorcido tem destas coisas. O normal é começar o périplo iraniano com Isfahan (isto se não se quiser ficar em Tehran). Eu tinha de fazer ao contrário e terminar nesta cidade. E em bom momento o fiz. Isfahan é a pérola da Pérsia. Uma cidade com muita vegetação e um rio que a separa em duas partes (pormenor que salta à vista depois de passar tanto tempo sem ver água). A cruzar esse rio estão inúmeras pontes. Umas mais modernas, outras com um rico historial. As mais antigas – e as que gostei mais – são a Si-o-Seh e a Khaju. Ambas construídas no tijolo amarelado típico desta região. São pontes entre o norte o sul, entre a realidade e a imaginação. Belos sítios para ficar e contemplar a beleza do rio Zayandeh e das suas margens. É uma cidade que se passeia por aqui. Entre uma estrada de árvores, flores e arbustos encontramos algumas estátuas, recreios e máquinas de exercício. É algo imperdível.

Mas este corredor de arvóres continua pela avenida principal – Chahar Bagh Abbasi. Nos seus lados, o corre-corre normal das cidades iranianas. Trânsito, muitas lojas e cores e muito movimento. No seu meio, uma tranquilidade contrastante. Daqui chega-se à Praça Iman. Uma ampla e geométrica praça. Contém o que de melhor a Pérsia tem para oferecer: o bazaar a norte, a mesquita Iman a sul, a leste a mesquita Sheikh Lotfollah e a oeste o Palácio Ali Qapu. A sua beleza não está apenas nos seus monumentos, mas na forma como a sua decoração subtil, apenas rasgada pela lúxuria dos referidos, nos deixa num estado de tranquilidade. Por detrás desta praça está uma cidade que vive. Um cidade que corre e se movimenta. Aqui parece ter um ritmo mais calmo e ligeiro.

Um bom sitio para sair é pelo Bazaar. Local sempre propício à imaginação e à satisfação da nossa vontade de observar. Cada detalhe deixam-nos uma recordação que mais tarde nos irá fazer sorrir. E, mesmo perdido no meio das suas ruas fechadas, acabaremos por ir parar à parte mais antiga da cidade. Aqui o cenário é bem diferente da beira-rio. O amarelo desértico é dominante. Esta zona é constituída por inúmeras ruas estreitas em que nos apetece ficar perdidos. No entanto - e sob pena de perdermos demasiado tempo a chegar a algum lado - vale a pena não o fazermos com muita “intensidade”. Aqui existe outro momento “wow”. Trata-se da Mesquita Jameh. Uma verdadeira homenagem à evolução da arquitetura islamica. Por fora passa completamente despercebida. Mas uma vez lá dentro, o tempo é para contemplar todo o seu espaço.

Para completar a cidade nada melhor que ir ao quarteirão arménio. O caminho para lá leva-nos à extensa avenida Tohid. E por estes lados, o moderno convive com o clássico, as ruas amplas com os becos estreitos. Caminha-se e encontra-se as lojas que nos habituamos a ver noutros contextos (Apple, Adolfo Dominguez, Nike, Puma, Geox, etc...). Aqui têm um sabor diferente. É mais um sitio para onde deixarmos ir até onde os nossos pés aguentarem. Encontraremos numa loja, num sinal, numa flor, na cor de um prédio, ou no simples movimento natural da cidade, interesse suficiente para ficar.

Claro que tudo isto é embrulhado pela simpatia dos seus habitantes. E em qualquer oportunidade falarão contigo, ajudar-te-ão ou tentarão te compreender - mesmo que o máximo de palavras comuns sejam uma dúzia. Uma simpatia que guardarei sempre. Um enorme presente, talvez a maior pérola que podes levar contigo.

E por debaixo do véu...

…está um mundo que espera por ti. Cada cidade é unica. Guardo o movimento de Tehran, a simpatia de Shiraz e a tranquilidade de Isfahan. Saio com a sensação que irei voltar. Apenas levantei um pouco do véu. E nesse pequeno espaço encontrei, acima de tudo, uma riqueza nas pessoas que cruzaram o meu caminho...


Le Moi Errant: O início

Finalizo o meu primeiro mês de viagens com uma nova rúbrica. Desde já agradeço à Suzzanne e à Ana Salvador por me guiarem a este título. Procuro por aqui descrever a viagem interior que esta aventura também representa. Viajar tem tanto de olhar para fora como passear por dentro. Espero que gostem da mesma.

O início não poderia ser mais intenso. Foram muitas emoções, epísódios e momentos que me preencheram. É, mais que tudo, a fase de acomodar e de nos confrontarmos com uma nova realidade. Nesse sentido foi muito diferente do que esperava. Quer queiramos, quer não, criamos expetativas, idealizamos situações. A realidade é sempre diferente. E sei que por mais que tente passar para palavras o que vou vivendo, tal só poderá ser sentido quando viajado. Nesse sentido foi talvez a minha primeira surpresa, a diferença entre o ideal e o real.

Num primeiro momento tentamos concretizar o que sonhamos, ver o que pretendiamos ver, mas, no meu caso, tive de abandonar esse sentimento. O realidade é o que é, e mais que realizar o que sonhei, quero viver o presente. Foi difícil trocar a ânsia de ver pela calma de estar. Sei que estou a perder muito. Que muitos locais acabo por não ver. Mas também sei que tenho uma vida inteira para o fazer. Mais do que tickar uma lista de to-do's, pretendo encontrar a minha viagem.

É desconfortável a sensação de teres um mundo apetecível tão perto de ti e optares por não ires a todo lado. Mas viajar é também ir à procura do desconforto. Talvez seja isso que obriga um viajante a mudar por dentro. Luta-se contra o nosso instinto natural de protecção. E quando estamos num sitio confortável, já vamos para o desconhecido uma vez mais. Mas esta mudança, este desconforto, obriga o teu espírito a estar completamente aberto. Olhas com mais cuidado à tua volta. Sentes dentro de ti uma insegurança que acabas por controlar. Onde queres chegar é mais importante que esses sentimentos.

Sei que um mês é pouco para dizer que mudei, mas a realidade é que aconteceu. Hoje recordo-me já com um olhar algo distante. Ainda é uma mudança difusa e sublime. Algo não concretízavel, mas à mesma é uma mudança...

Monday, November 14, 2011

Ben Türk



Hoje é o último dia na Turquia. Na realidade, amanhã ainda estarei por cá, mas será passado em viagem. De Göreme para Ankara, e daí para Tehran. Sinto-me emocionado. Toda a experiência foi overwhelming. Mais que tudo, levo comigo as pessoas que conheci pelo caminho. Levo o companheirismo da Yuhsi, a simpatia do Zé, a simpatia da Sophie, a ideia do Harry, a abertura do Alejandro, o extraordinarismo de Volnei e da Pinar, a dica da Juliana, a conversa com o Quang e a hospitalidade do Chris. Um excelente arranque de viagem.

Mas a Turquia terá sempre a imagem de três pessoas: Eda, Naime e Özlem. Filhas desta lindíssima terra, foram a chave para abrir as portas deste país. Não existem palavras com que possa retribuir a simpatia, ajuda e hospitalidade que me entregaram. No fundo sinto que representam o que de melhor este país tem para oferecer: pessoas únicas, interessantes e envolvida num contexto histórico fenomenal.

São as suas pessoas que fazem da Turquia um grande país. Quer estejamos a passear pelas ruas estreitas de Istanbul ou a admirar a belissima paisagem da Cappadocia, são elas que transformam este local num sítio único.

Foram quinze dias espectaculares. Istanbul é um sitio vibrante. Não te deixa indiferente. Um palco imenso para a vida. Tanto no meio da confusão de um mercado, a passeares pela emblemática ponte Galata ou a apreciares o dia-a-dia numa das avenidas desta cidade encontras sempre uma multiplicidade de vidas. Diferentes passados, culturas e histórias convivem em harmonia. E sentes essa história não apenas nos monumentos ou estradas por onde andas mas, e principalmente, nas pessoas. Nas suas tradições e hábitos. Na sua forma de estar e interagir. É mais que tudo uma cidade real e que existe.

Cappadocia contrasta com esta agitação harmoniosa. Aqui encontras uma calma por entre os seus imensos vales. As pessoas em tudo são iguais. Ficas com a certeza que a hospitalidade é do país e não apenas duma região. Gosto muito como toda esta zona tem diversos ângulos. E se Istanbul é um mosaico cultural, este é um mosaico paisagista. Ambos entregam-te emoções forte. Gostei de me perder (mas não muito) por aqui, ou de encontrar aquele pequeno abrigo em que apenas a vida selvagem entra. E gostei de caminhar. Talvez seja algo genético. Estamos capacitados para andar, e, depois de uma vida sedentária, todo o meu corpo pedia para andar. Seguir trilhos como que chegasse a um porto de abrigo distante.

E eu apenas vi dois locais. Uma pequena amostra do que tem para oferecer. Descobrir este país foi uma dádiva. Sinto que o substimei muito. Procurei um local de transição e encontrei um espaço autêntico e acolhedor. E depois de uma tão boa recepção, sinto-me em casa. E de tanto me confundirem com um, hoje sinto-me também um pouco turco...

Tesekkür ederim por tudo

Hosçakal Turquia.

P.S. Amanhã é dia de viagem. Quando voltar a este espaço já estarei no Irão com outras aventuras para relatar. Se tudo correr bem volto a este espaço quarta-feira.