Sunday, January 8, 2012

O livro que me escolheu


Ainda faltavam umas horas para o filme. Sem nada que fazer, fui descobrir que lojas tinha este centro comercial. Depois de passar pelas roupas, perfumes, cafés e restaurantes, aí estava ela. Uma pequena livraria, com pouco mais de 3 colunas de livros. Os livros partilhavam o espaço com DVD's e jogos infantis. Ainda perdi algum tempo para ver que histórias se contam aqui.

Mas era um livro que procurava. Não um especifico, apenas um livro. Uma história para ocupar o meu tempo. E estava difícil. Aquele que eu ando à procura, foge de mim. E procurar um livro sem ter nada em mente, torna-se uma tarefa complicada. Lá andei para trás e para a frente. De vez em quando tinha a certeza que era aquele. Mas algo dentro de mim acabava sempre por me dizer: não. Percorri todas as prateleiras até que um pequeno livro sorriu para mim.

O seu nome era Siddhartha, escrito por Hermann Hesse. Agora, a voz que tinha recusado todos os outros livros dizia para levar este. Contente com a escolha, saí da pequena livraria e fui até à rua. Sentei-me num banco e comecei a ler. Á minha volta, as buzinas dos carros, as pessoas que apressadamente se deslocavam daqui para ali e os condutor de rickshaw estavam agora fora do meu mundo. Eu tinha imerso no mundo de Siddhartha. Um mundo estranhamente parecido ao meu.

Ouvi em tempos que não somos nós que escolhemos um livro. É o livro que nos escolhe. E este escolheu-me na altura perfeita. Tal como Siddhartha, também tinha partido numa viagem. Também estava na India. Também procurava algo indefinido. Poucas vezes uma história me tocou tanto como esta. Eu não li este livro, conversei com ele. Siddhartha transformou-se num companheiro de viagem. Partilhámos momentos. E depois, cada um seguiu o seu caminho. Ele, para as mãos de uma pessoa em Cochin, eu para as do meu destino.

Thursday, January 5, 2012

Bengalorizado


Existem locais que nos atraem por nenhuma razão aparente. Sem ser o título de Silicon Valley Indiano, não encontrava outro grande motivo para estar aqui. Ouvi dizer que esta cidade nos bengalorizava, mas nunca encontrei a definição de tal coisa. Assim fui conhecer a cidade, aberto a tudo o que tivesse para dar...

Mg Road e Cubbon Park

Todas as cidades são marcadas pelas suas avenidas. São sitios amplos que desbloqueiam o movimento dos seus habitantes. Umas são importantes pelo seu comércio, outras pela sua beleza e algumas pela importância que têm na centralidade de uma cidade. Eu diria que a Mahatma Ghandi Road (ou MG Road como é conhecida) é o ultimo caso. Mais do que o comércio ou beleza, é a sua centralidade que a marca. Aqui todas as ruas parecem ir ter à MG Road, e o trânsito - em modo stand still à hora de ponta - é testemunho disso mesmo. Nas laterais desta avenida estão grande empresas, ruas comerciais e hotéis. No seu centro, a linha de metropolitano, posicionada uns bons metros acima do solo. E é por esta avenida que vamos ter... bem a qualquer lado.
No meu caso quis ir ter a Cubbon Park. Um parque plantado no meio da cidade e que contrasta com a agitação da capital do Estado de Karnakata. Aqui, quase perdemos a noção de estar na India. Não existe muito trânsito, as ruas fluem direitas e o verde das árvores dão uma tranquilidade impossível de atingir no turbilhão da típica rua indiana. Vê-se aqui e ali, o casal de namorados a passear, o idoso a reflectir ou o esquilo a pular de ramo em ramo. Claro que o tipo de árvores, e fauna que voa por ali, te diz que estás na India, mas a estátua da Rainha Vitória quase que te transporta para uma outra localidade e tempo. É um bom local para descansares e aproveitares para carregares baterias antes de entrares na confusão da cidade indiana.
Chickpet (mercado)

Esta é a parte velha da cidade. Centro dos transportes (autocarro e comboios), sede do forte da cidade e local do grande mercado de rua. Por aqui, muita confusão e ruas estreitas. A acompanhar grande parte do percurso, um mercado. Daqueles mercados de rua que nos convida a participar. Eu passeio-me por ele. Apenas mais um entre tantas pessoas que por aqui passam.

Como em tudo na India, somos engolidos. Mas é uma boa sensação. Como uma onda, basta nos deixarmos ir até onde ela tem força para nos levar. A partir daí, estamos uma vez mais por nossa conta. Sem dúvida que este sitio completa a parte mais ampla da cidade. Apesar de interessante, sem este mercado de sons e gostos, Bengalore seria um mais pobre.

Os centros comerciais

Quis estar aqui para... estar. Queria experimentar uma cidade indiana. Moderna e actual. Bengalore, cidade que viu crescer um dos co-fundadores do Hotmail, é hoje uma cidade em crescimento. Acabei por ir onde as pessoas passam parte do seu tempo: nos centros comerciais. Um pouco por todo o lado, é aqui que cidade se movimenta.

E o improvável acaba por acontecer quando se quer conhecer uma cidade. Eu, que não sou dado a centro comerciais, acabo por passar algum tempo neles. Pouco diferem do que estamos habituados. Imagem perfeita do mundo actual que vivemos, com todos os seus lados negativos e positivos. Por aqui passeia-se a cidade que vive. Compra-se roupas e presentes de Natal. Ou então passa-se o tempo a ir ao cinema. Foi o que optei. Não tendo uma escolha variada (quero ver um filme de bollywood em Mumbai), acabo por ir ver o Missão Impossível. Um grande sucesso, com as sessões quase sempre esgotadas. Lá consigo o bilhete e sigo para a sala. Mas afinal existem diferenças. Descubro que não posso entrar com tabaco ou isqueiro. Aliviado dessa carga, entro para uma sala escura onde muitos aguardam o início do filme. Lá dentro a pequena confusão indiana. Por esta altura também já é minha. E quando à nossa frente o documento do governo atesta a autorização para o nosso filme começar, o silêncio impera. Apenas cortado pelo som das pipocas.

Bengalore não é um encanto. Se analisarmos por si só cada um dos seus aspectos, existirão outros locais na India onde encontraremos melhor. Mas Bengalore é Bengalore. É o conjunto de uma cidade ampla, indiana, confusa, comercial e muito dinâmica. É esta rede de pormenores tão diferentes que acabam por marcar esta cidade. E enquanto saboreio o meu expresso num daqueles cafés modernos, penso: já fui “Bengalorizado”...

Wednesday, January 4, 2012

Le Moi Errant: O tempo


Quando pensamos em viajar, pensamos em locais físicos. Foi assim comigo. Enquanto preparava este sonho, colocava-me em algum local distante a observar um pôr-de-sol, ou simplesmente a caminhar numa rua qualquer deste mundo. Assim, o onde era o grande presente que estava a oferecer a mim próprio. E a viagem era, acima de tudo, algo geográfico.

Também seria uma jornada emocional – daí a existência desta crónica – mas não tinha entendido que isso, locais ou emoções, não é a base de uma viagem. A sua essência é o tempo. O que estava a oferecer-me era tempo livre. E nos dias de hoje, tal é precioso. É o que torna uma viagem em algo especial. Antes de partir tinha uma relação esquizofrenica com o tempo. Sentia-o precioso e fugídio. Ora o amava, ora o odiava. Hoje, percebo que ele está ao nosso alcance e no nosso controlo. E que isso - ter tempo - é algo que modifica tudo à tua volta.

A vida é feita de escolhas. A minha guiar-me-á para um destino bem diferente do que chegaria caso tivesse tirado um ano para estar em Portugal. As pessoas que conhecemos, as paisagens que admiramos e as experiências que temos são a fonte da nossa mudança. Mas na essência, estaria também numa viagem, tão mágica e especial como a que estou.

Poderão questionar se vale a pena todo o sacrificio. De caras, respondo que sim. Nem preciso de tirar os olhos do ecrã. Basta ouvir os sons à minha volta, sentir os cheiros das flores que decoram as árvores, ou relembrar todos os optimos momentos e pessoas que encontrei pelo caminho. Mas mais do que viajar, isso é viver... e viver vale sempre o sacrifício necessário para o fazer.

Tuesday, January 3, 2012

História de uma foto: uma árvore



Pode ser apenas uma árvore, mas para mim foi mais que isso. Era alguém que me saudava de manhã. Que me dizia adeus antes de entrar para o hotel, e que de certa forma me acompanhou nesta aventura de 3 dias em Bengalore. Assim como acompanha quem passa nesta estrada (Mahatma Ghandi Road – uma larga e longa avenida pivot da vida em Bengalore) para ir para o seu trabalho. Que dia após dia, aguenta a sinfonia de buzinas que compõe qualquer estrada indiana. Companheira também dos que, um pouco mais à frente, param para beber um chá ou comer o pequeno almoço antes de pegar no rickshaw e procurar o seu sustento.

Gosto de árvores. Para mim sempre as imaginei como nossos guardiões. Trazem vida nos seus ramos, conforto nas suas sombras. São uma lembrança de que pertencemos à natureza e dela dependemos. Talvez por isso gostei tanto desta árvore. Não tanto pela beleza, mas pelo conforto que me deu naquela madrugada em que encontrei a cidade despida de pessoas. Tudo o resto era ainda elemento estranho a tentar entrar no meu mundo. Esta árvore, pelo contrário, já fazia parte do meu. E lá estava ela, a sorrir para mim, e a dizer: “Bem-vindo a Bengalore, meu caro estranho...”

Monday, January 2, 2012

A voar até Bengalore...


E mal coloquei o pé dentro do autocarro, lá estava ele. Gritava por mim, algo que demorei a perceber. Quando me virei tinha o condutor de rickshaw que me “saudou” à chegada a Hampi.

“Remember me?” pergunta-me a sorrir. Como me pudesse esquecer. Depois dessa chegada, ainda tive de dizer mais umas vezes não. Nada que ele não aceitasse desportivamente.
“Of course yes. I'm leaving...” digo-lhe retribuindo o sorriso
“You didn't gave me any bussiness, m'n!”
“I told you... your were wasting your time... and money...” despedimo-nos em sorriso de “adversários” com vontades contrárias.

E com isto terminava a minha aventura em Hampi. Dirigia-me agora para Hospet, a cidade de transbordo desta região. Daí apanharia o autocarro para a minha primeira grande cidade indiana – Bengalore. Antes, mais uma boa conversa com outra viajante – Selina – e o reencontro momentâneo com Oscar. O encanto de Hampi, e a supervisão de Ganesha, ainda perduravam.

Passado umas horas lá chegava o autocarro... para meu alívio. Já passava mais de 30 minutos da hora prevista. Desta vez não existiu nenhum pedido de dinheiro ou pessoa adicional. Tudo bem simples. Simples demais. Lugar visto – desta vez em cima – bem acomodado, e lá começamos mais uma viagem. O espaço não é amplo, mas é o suficiente para uma pessoa dormir à vontade. Tenho apenas uma cortina, e duas barras de ferro, a separar-me do corredor. Por esta altura era ainda um pequeno pormenor.

Contemplo a paisagem. A floresta indiana ganha contornos mistiscos à luz da lua. Facilmente conseguimos perceber o motivo desta região ser tão rica em histórias. Tudo à nossa volta puxa a nossa imaginação e o misticismo. O cansaço entretanto vai-se instalando e acomodo-me. Quando estava naquele mundo entre o sonho e o real... uiiiiiiiiiiiiiii... plash. O desafio da gravidade estava ultrapassado. É uma sensação estranha quando o chão foge debaixo dos nossos pés... Bem, neste caso, corpo.

E o que era um pequeno pormenor – estar apenas resguardado do corredor por duas barras de ferro e uma cortina - passa agora a ser algo bem presente na minha mente.Altura de ajustar a posição do corpo para garantir que não seria disparado para o chão.

A viagem continuou com mais uns quantos desafios à gravidade. Uma vez mais, e a custo de alguns amortecedores, chegamos mais cedo que o previsto, antes do sol nascer. E assim, meio a dormir, tenho a primeira impressão da cidade. Tudo está calmo por esta altura – excepção feita aos condutores de rickshaw. Com a experiência de Hampi ainda em mente, sei que tenho cerca de 10 minutos até ficar uma vez mais sozinho. No entanto, é tempo suficiente para me afastar, comprar tabaco e apanhar o rickshaw que me levaria ao hotel nesta cidade que agora acordava...

Sunday, January 1, 2012

Qualquer coisa chamada de compromisso


Vou cometer o erro mais comum ao ser humano: fazer um compromisso. Na realidade não é bem um compromisso, mais um processo de intenções. A ideia é tentar melhorar um pouco o blogue e dar-lhe alguma consistência. Como em qualquer coisa que faça, quero deixar o alerta que o futuro poderá provar que este foi mais um post sem sentido.

O compromisso passa por colocar um post novo todos os dias utéis da semana. Dou-vos tréguas ao fim-de-semana e feriados. A ideia é criar um ritmo mais certo e previsível. Tal como a viagem, também isto está limitado pelos imprevistos sendo que fica dependente da disponibilidade de internet.

Com o tempo quero também afinar o blogue. Para além de uma possível reformulação gráfica ao longo do mês de Janeiro, vou construir algumas rúbricas temáticas. Assim, para além de textos livres, poderão contar com:

Le Moi Errant – Este não precisa de explicação. A narrativa da minha viagem interior vai continuar e em princípio encontrará o seu espaço às quintas-feiras.

Crónica de Viagem – No fundo é a criacção de espaço para um tipo de artigos que já tenho escrito. Aqui fica as minhas impressões dos locais por onde passei e é onde vou tentar afinar a minha escrita de viajante. Ainda não decidi se o espaço será semanal (e nesse caso escolherei a Sexta-feira) ou se seguirá o ritmo da viagem. Ao longo deste mês verei qual a melhor opção e as vossas sugestões são mais que bem-vindas.

História de uma foto – Este é o novo espaço que criei. Por cada local que passei, vou escolher uma foto que me tenha dito algo de especial. O texto poderá passar pela descrição da foto, pela explicação do momento ou pela criação de uma pequena narrativa à volta da mesma. A ideia é dar uma outra profundidade à fotografia escolhida e tentar-vos transportar para o momento em que a realidade ficou congelada. Tal como a rúbrica anterior, também ainda não decidi se terá um dia próprio (e nesse caso será às quartas) ou se seguirá o percurso da viagem.

Para já, sinto que a tendência será a de criar rubricas temáticas para cada dia da semana. No entanto será Janeiro a provar se isso se concretizará ou não. Fica o compromisso de tentar criar algo novo com mais frequência e, acima de tudo, tentar transformar este espaço no navio perfeito para vos transportar nesta viagem.

P.S. Embora não tenha mencionado, também quero encontrar uma forma de resolver o problema de colocar fotos nos artigos. Ultimamente não tenho colocado, pois a rede é muito lenta. Enquanto não resolvo, não se esqueçam que podem aceder às mesmas pelos links que estão no topo do blogue.

Feliz 2012


Cá estamos todos. Depois de muitos festejos, desejos e votos, um novo dia sorri para nós. Para mim foi uma passagem especial. Fiz o que me apeteceu, num sitio improvável e com pessoas simpáticas à minha volta.

Tornou-se extraordinária pelas mensagens que recebi. Estas tocaram bem dentro do meu coração. Mais que tudo, foram elas que transformaram esta passagem em algo único. Não sei como agradecer, pelo que o faço da única maneira que conheço: muito, mas mesmo muito obrigado!

Agora temos mais 366 dias até completar outro. E antes de começar os festejos do fim do próximo ano, temos uma vida para preencher. A minha vai passar por aqui. Vou tentar ao máximo transportar-vos para o mundo onde vivo, que também é o vosso. Um mundo mágico e encantador. E enquanto estiverem por cá, espero que possam esquecer todos os tormentos que estão lá fora. Que possam sonhar. E acima de tudo que possam sorrir.

Feliz 2012!!!

P.S. Amanhã sai um artigo sobre o que pretendo fazer com o blogue e a partir de terça retomo o trilho da viagem.