Tuesday, January 17, 2012

História de uma foto: Cochin: a rapariga (...ou uma relação como outra qualquer)


Nunca te cheguei a conhecer. Não realmente. Estavas focada no teu trabalho. E eu demasiado ausente da tua realidade. Nada à tua volta existia. Nem as pessoas que se passeavam, nem as que trabalhavam para ganhar mais um dia de salário. O que te fazia sorrir era o teu trabalho.

Nunca te cheguei a conhecer. Não realmente. Mas essa era a nossa relação. Eu admirava-te e tu eras admirada. Inconsciente deste meu acto. Ainda tive o impulso para mudar a situação. Tão rápido como apareceu também o neguei. Não fazia sentido. Eramos de mundos diferentes. Muito diferentes. Nunca nos iriamos compreender. E a beleza estava na nossa ausência. Fazê-lo de outra forma apenas destruiria o momento.

Nunca te cheguei a conhecer. Não realmente. E como tantos outros, separamo-nos sem os nossos mundos se cruzarem. Apenas partilhamos um breve momento.Tu continuaste concentrada no teu trabalho e eu admirar outras pessoas...

Monday, January 16, 2012

Um Natal diferente


O dia foi passado como outro qualquer. Tinha acabado de chegar a Cochin e a vontade era a de conhecer o sitio que me tinha encantado de madrugada. Apenas umas estrelas, e um ou outra árvore enfeitada, recordavam-me da véspera de Natal.

Com o passar do tempo comecei a ficar mais ansioso. O mais importante desse dia não era o sightseeing, mas a existência de ligação à internet. De volta a casa, esta era a minha prioridade. Já não me recordava que estava em Cochin, mas sim na véspera de Natal.

É estranho estar tão longe e numa vida tão diferente neste dia. Existe uma sensação ambígua. Feliz pelo que atingi, saudoso do que tenho em “casa”. Foi o dia em que tive mais saudades. Tudo me fazia recordar os momentos que se vivem pelo Natal, e como preciosos eles são. Sei que é mais um dia. Mas por esta altura a intensidade é diferente. Os olhos das pessoas carregam outra força. Sentia falta disso.

Mas a fome falou mais alto e, com a ligação garantida, fui para a minha consoada de Natal: um fried rice com masala. Uma forma original de consoar no Natal. O restaurante, que tinha aberto à pouco tempo, estava quase vazio. Apenas mais um casal constituia o grupo de clientes. Eles, de partida, desejam um feliz natal, que retribuo. Com a barriga satisfeita, retorno ao meu quarto.

Ligação online e recebo o meu presente. Duas horas a falar com a minha família. Vejo a minha sobrinha a abrir o presente que lhe ofereci. Algo que é possível quando se tem um bom contato com o Pai Natal. O tempo passa entre histórias, sorrisos e votos de Bom Natal. Pode não parecer muito, mas aquelas horas valeram ouro. Fizeram o meu Natal ser diferente e muito, muito especial...

Sunday, January 15, 2012

Cochin: Outra Portugalidade


Não gostava. Normalmente quando a palavra “construção colonial” aparecia no descritivo, eu não me interessava. Na India mudei de opinião. Tudo começou em Goa, mas confirmou-se em Cochin. Por aqui encontramos os pequenos toques que constituem uma recordação de um passado que também foi português.

O que me atrai não é tanto essa lembrança. Gosto de sentir a fusão. Uma prova que a humanidade é feita de misturas. E que essas, têm o condão de criar algo único e belo. Mais do que encontrarmos um pequeno Portugal, encontramos outra dimensão de Portugalidade, Uma de adaptação e fusão. Sentimo-nos em casa, sem ser a nossa...

Thursday, January 12, 2012

Mysore


Bengalore é a capital actual. Mysore é a capital histórica. Não conseguimos ver uma sem procurar a outra. São complementos necessários para entendermos esta região. Tenho de admitir que acabei por não ver muito, mas o que vi foi o suficiente para encher o olho.

Maharaja's Palace & Devaraja Market

Existem palácios, e depois existe o palácio do Maharajá. Sempre nos habituamos a associar esta palavra a luxo. Aqui percebemos porquê. O sitio é uma amplo espaço que ocupa uma parte da cidade. Do lado de fora nem nos apercebemos, mas uma vez lá dentro encontramos algo que nos mima os olhos. O jardim é amplo e geométrico. Os portões constituem uma janela para a cidade. Em cada um destes, estão os templos que dão aquele toque exótico ao espaço.
Mas a atracção é o palácio. E este é simplesmente belo. As portas de madeira, o chão em mosaico ou as colunas coloridas do salão, transportam-nos para uma outra era. Podemos deixar a nossa imaginação correr livre que ela encontrá sempre um recanto para se aninhar. De saída o jardim parece ainda mais grandioso.
E quando entramos na rua, deixamos esta realidade para trás. Já imperam as buzinas e a confusão. O corre-corre indiano compõe esta cidade e seguimos por ela até chegar ao Devaraja Market. Um mercado constítuido essencialmente por produtos alimentares e flores. Mas suficiente movimentado, para seguirmos a multidão e experimentar um ou outro produto. Gosto de reparar como as pessoas se movimentam. Como os vendedores tentam angariar clientes, ou simplesmente esperam que o seu karma se concretize. É sempre bom o tempo passado no mercado.


Chamundi Hill

E a observar toda esta cidade está a colina Chamundi. É um lugar sagrado e no seu topo estão alguns templos. Sigo para lá de rickshaw, contemplando o espaço verde à minha volta. Chegado ao topo, é o mercado de rua, com as suas bancas e flores que me contagia. Dou uma volta para apanhar a atmosfera do local e reparo em Ganesha uma vez mais.

Decido descer a pé, pela escadaria que os peregrinos fazem para chegar ao topo. A este ritmo consigo apreciar melhor a bela vista que esta colina tem sobre a cidade. Não sou o único. Aqui e ali, as pessoas aproveitam os bancos naturais que as rochas proporcionam. A descida é inclinada e rápida. Pelo meio ainda encontro a estátua de 5 metros de Nandi. Parece ter um sorriso trocista que me seduz.

Mysore tem tudo o que imaginamos duma cidade no Sul da India. É um bom local perfeito para parar e recuperar o nosso folgo. E foi isso mesmo que fiz...

Wednesday, January 11, 2012

Le Moi Errant: Um viajante em construção


Ainda estou em construção. Estes últimos meses foram de intensa aprendizagem. O ritmo foi alucinante, tanto como uma viagem como pode ser. Os dias parecem meses, e os meses, anos. E muito mudou.

Quando comecei tinha de ter tudo muito certo. Os hotéis e as viagens marcadas para poder não me preocupar. O conforto era aquilo que mais valorizava. Não tanto o material, mas o do previsto. Aquela certeza que gostamos de ter quando vivemos a nossa vida.

Mas aos poucos isso é substituido pela incerteza de viver. E com o tempo, tens de fazer escolhas. E são essas que te moldam e te constroem. Quando algo corria mal, poderia tentar resolver e seguir a minha viagem. Ou ficar preocupado e tentar planear tudo melhor e mais certo para a próxima vez. Julgo que é fácil descobrir qual foi a escolha que tomei.

E não é melhor nem pior, mas apenas minha. Na realidade nem cheguei a escolher. Quem eu sou já estava definido e far-me-ia escolher sempre essa opção. As escolhas, mais do que determinarem quem nós somos, constroem-nos para realizar o potencial que já temos dentro de nós.

Esta viagem será sempre uma enorme construção. Ainda tenho muito para aprender, muito para escolher e muito para receber. Por agora, vou andando. Um passo de cada vez. Sempre curioso para saber o que o caminho tem para me oferecer.

Tuesday, January 10, 2012

História de uma Foto: Mysore - os teus pés



Foi um dos pormenores que mais gostei. A relação que as pessoas têm com os seus pés é muito diferente da nossa. Torna-se óbvio pelo andar descalço. E belo pela forma como as indianas decoram os seus pés. Não é só as unhas pintadas ou as pulseiras. É também o anel que utilizam. Elevando o pé à categoria de uma mão. E para mim, isso é lindo.

Para tirar esta fotografia, sentei-me no passeio perto do Palácio do Maharaja. Tinha uma máquina nova com um bom zoom e isso permitia-me arriscar uma foto há muito aguardada. Tive de tirar algumas até conseguir esta. Os pés fugiam demasiado rápido. E a minha timidez não ajudava. Muitas vezes cria um conflito entre a minha vontade de fotografar e o respeito em não o fazer. Desta vez ganhou a vontade. Afinal algo tão belo deve ser partilhado com o mundo...

Monday, January 9, 2012

A pausa em Mysore


Foram dois meses intensos. E sem me aperceber a minha mente precisava de uma pausa. Um tempo sem fazer nada. Ainda não tinha experimentado essa sensação. Acabou por acontecer em Mysore. Nos primeiros dias ainda seguia a minha rotina. Mas sentia que não estava a sentir a cidade da mesma forma.

Intrigado com a situação, procurei dentro de mim a resposta. Só aí é que reparei, estava a precisar de parar. Sentia que estava a chegar ao limite de uma etapa. Antes de passar à próxima, tinha de ter este momento. Refletir um pouco, relembrar as experiências que tive, e acima de tudo, deixar o meu espírito repousar um pouco. Mysore ficará não pelos seus belos sitios, mas sim por ter representado uma mudança de etapa na minha viagem. E isso é das coisas mais importantes que posso ter recebido de uma cidade.