Wednesday, February 8, 2012

Le moi errant: O Cansaço


A determinada altura começas a sentir um cansaço. Não é físico nem mental. Não o consegues definir e ficas preocupado. Olhas dentro de ti à procura da resposta. Aos poucos, esse cansaço modifica-te a viagem. Já não tens aquele entusiasmo inicial. As ruas já não são tão belas. O templo é apenas mais um. Acabas por esquecer o quão especial é o que estás a fazer.

O meu, apareceu no final do segundo mês de viagem. Chegou de mansinho e embrulhado noutros sentimentos. Primeiro foram as saudades de casa na época festiva. Depois o cansaço fisíco de estar tanto tempo em viagem sem conforto. Até que sobrou apenas o cansaço sem motivo aparente.

Pensei que tinha perdido a minha capacidade de admirar o mundo. De encontrar beleza nos pequenos detalhes. Interroguei-me se a mudança era pelo melhor. Foi um momento dificil da viagem. Um momento que uma amiga de Hampi – que estupidamente esqueci-me do nome e que espero que esteja a ler neste momento – me tinha avisado durante uma conversa que demorou uma travessia de rio.

É uma fase assustadora, mas depois... depois, sem eu conseguir explicar, heis que estou numa cidade, a admirar tudo como acontecia no início. As cores recuperam a sua vida, os detalhes são mais sentidos e os sorrisos ocupam os rostos das pessoas em teu redor. Voltas à viagem sem perceber. Só sabes que aconteceu, assim como sabes que o cansaço ficou finalmente para trás...

Tuesday, February 7, 2012

História de uma foto: Um momento




As fotos de pessoas são sempre tiradas de longe. Gosto de captar o momento sem interferir. Por isso são surpreendentes para mim. Esta não foi excepção. Estava a caminhar na Salai Rd – uma rua que Chennai à sua praia – numa zona pouco atraente. A rua era de um castanho asfáltico indiano. Uns muros escuros compunham o resto do cenário. E de repente, dois pedaços de cor encheram os meus olhos. Estavam numa pequena e vital tarefa – arranjar água. Existia uma simplicidade bela nestas mulheres. Todo o cenário se altera. A escuridão dos elementos parecem agora ser colocados para as fazer sobressair.

Estando do outro lado da rua, e a uns bons metros de distância, tirar uma foto foi uma aventura. Tens uma fracção de segundos até que um carro, ou uma pessoa, te tape a fotografia. A solução, como sempre, é tirar muitas. Mas o que vês não fica parado no tempo. Ou desaparece, ou reparam no teu acto e passam a modelos. Quando tirei esta foto, os meus olhos estavam no trânsito, à procura do momento certo para carregar no botão. Quando o fiz, e olhei para ecrã, nem queria acreditar. A minha imagem inicial agora não existia e um outro momento tinha sido captado.

Monday, February 6, 2012

Outros viajantes III – Dotan Malach


O cenário é composto por belas paisagens e extraordinários monumentos. Mas a viagem traz-te as pessoas. E neste caso tenho tido a sorte e o privilégio de conhecer muitas extraordinárias. Uma prova de que este mundo é feito por boas pessoas. Dotan é mais um exemplo. Actor e músico israelita, cruzámo-nos em Munnar. E é impossível não ficar apaixonado pela sua simpatia e humor.

Mais que eu, acho que Dotan descreve-se melhor na sua página do Myspace: “‏Was born in a circus in Belgrade to a mother that performed as a trapeze girl and a father that trained the lions. was touring with them all around the world until he was 16.lives now in Tel aviv, building his own musical circus, taking care of elephants in zoological gardens in jurusalem, performing everywhere , lives in green and beautiful van and taking out his first album soon”

Quanto à música, acho que o melhor é mesmo ouvirem. Para isso deixo aqui um clip. E apesar de não perceber o que diz, a música transmite um good vibe que tanto gosto. Para mim foi um privilégio ter partilhado um dia na sua companhia e espero reencontra-lo. Quem sabe para beber uma cerveja no bairro alto depois de um concerto em Lisboa.


A Map for Saturday


Foi um presente oferecido por dois amigos. Viram este documentário e decidiram partilha-lo. Com uma ligação lenta - e uma cidade que insiste em ter cortes de energia - o simples download foi uma tarefa “radical”. Estava num cibercafé que não tem gerador mas com ligação rápida o suficiente para fazer o download.

Tinha chegado a Chennai e estava um pouco eufórico. Voltava a recuperar a energia que nos últimos tempos me faltava. Eles pensaram em mim ao ver este filme e eu estava curioso para saber o porquê. Download feito, jantar no estomâgo e estava no pequeno, mas limpo, quarto de hotel. E quando o filme começou, só me faltavam as pipocas para me sentir num cinema.

E que filme. O documentário chama-se A Map for Saturday. E é sobre uma pessoa que tem um emprego estável, que lhe permite uma boa vida, com um bom apartamento e decide...



...sim adivinharam, largar tudo e ir dar uma volta ao mundo. Uma história que por esta altura já vos é familiar.

Este documentário retrata bem o que significa uma viagem como esta. Eu ainda estou nos primeiros 20 minutos da minha volta, mas já criei uma empatia instantânea com o autor. Algo que acontece também na estrada. Assim que conheces um “fellow traveller” existe uma ligação difícil de explicar.

Se querem perceber um pouco mais o que é isto de dar voltas ao mundo, sugiro que vejam este filme. E quem sabe, também fiquem com o bichinho das viagens. Estranhamente esse objectivo também coincide entre o autor do documentário e mim. Também gostava, com as minhas palavras e fotos, não só levar-vos comigo, como contaminar-vos com a vontade de partir e ver este belo mundo. Acreditem, não é assim tão dificil e é algo que guardarão para o resto das vossas vidas.

Sunday, February 5, 2012

Uma cidade simpática


Chennai vale por si. Não sendo um highlitght cheguei sem expetativas. A melhor forma de encontrar uma cidade. O ritmo indiano deste local captou logo a minha atenção. Foi paixão à primeira vista, sem saber muito bem porquê. Olhava à minha volta e não existia nada de atraente. Muito lixo, e o cheiro a acompanhar. Prédios degradados, ruas esburacadas, e uma sinfonia de buzinas. Mas era isso mesmo que me apaixonava. Chennai era real. Não tentava ser mais que uma cidade. Gosto quando isso acontece. Quando as pessoas vivem na sua cidade. Por algum motivo sem explicação, umas são mais reais que outras.

Talvez seja por não ter nenhuma grande atracção. Mas não deixa de ser bela. Com sitios que se enquadrariam num belo postal. O complexo do museu governamental é um exemplo. Situado numa grande avenida – na realidade a avenida passa por cima da antiga estrada – este é um sitio encarnadamente belo. Os edificio são bonitos, e o espaço envolvente permite-te relaxar um bocado. Lá dentro as exposições valem o dinheiro que dás. Nada que te faça cair o queixo, mas gostas das estátuas, das histórias que aprendes, dos ossos, dos animais embalsamados, selos e quadros que tens oportunidade de ver. Se o museu não for suficiente, em pouco tempo estás na praia. Um quasi-contraste com o corre-corre de Chennai. O amplo lençol de areia nivela tudo e desafoga o teu olhar. Estás numa praia de uma grande cidade. Mas, mesmo assim. consegues ter a tranquilidade que só o mar te pode dar.

E embora possam dar boas fotografias e emoções, não são o maior highlight de Chennai. Esse é simplesmente andar pela cidade – algo que tentava explicar aos condutores de rickshaw enquanto recusava as suas generosas ofertas. Em Triplicane – zona do meu hotel – tinha a sorte de poder escolher amplas avenidas, ruas movimentadas ou laterais esguias. Decido pelas ruas movimentadas.

Os prédios variam entre construção colonial, casas tamilianas ou prédios modernos. Mas é perto dos passeios que o movimento atrai a minha atenção. Pouco utilizados pelos peões, servem para beber um chá, colocar a mercadoria, ou ficar sentado a fazer o seu trabalho. Depois destes, estão as bancadas de rua – com frutas, roupas, calçado, etc... - a competir com o estacionamento das inúmeras motas e rickshaws que deixam ou aguardam clientes. Logo a seguir, vamos nós – os peões – lutando por espaço com o trânsito que circula no meio da rua. E é nesta confusão de detalhes e estímulos, de cores e hábitos, que me sinto feliz. Mais do que um grande monumento, aprecio a mãe que cata a sua filha ou a mulher multicolorida a tirar água de uma fonte. Tudo compete pela tua atenção ao ritmo de uma grande cidade indiana.

Este seria o maior highlight, se não tivesse conhecido as pessoas. E são estas, em ultima análise, que fazem o local. Tornam-no belo. Logo no primeiro dia sorriram para mim. E continuaram a fazê-lo nos outros. Impossível terminar melhor do que a tomar um café com duas pessoas desta cidade. E por entre sorriso e conversas, transparecia uma enorme simpatia que diria Chennainiana.

Thursday, February 2, 2012

Uma viagem... espiritual


Este é o post improvável. Nunca fui dado a muita espiritualidade. Como em outras coisas, nesta viagem tenho descoberto uma nova dimensão em mim. Não que tenha abraçado uma religião. Por aí tudo se mantem igual. Mas a minha experiência mudou-me tanto que trouxe algo que não sei definir a não ser com palavra espiritualidade. Tamil Nadu foi a parte em que tal se concretizou. Uma deliciosa coincidência. Tinha escolhido visitar este estado por causa dos seus templos e a espiritualidade é algo que se sente um pouco por todo lado.

Madurai

É o coração da cidade. Domina a paisagem e dá-lhe um toque mágico. Tem uma mistura saudável de calma e agitação. Apesar do hutle-hustle indiano não te sentes oprimido pelas solicitações. Quando chegas ao centro, dois mundos diferentes co-existem. De um lado a confusão do comércio e cabos de eletricidade. Do outro, a calma do templo. A rua, que separa estes dois lados, é estranhamente limpa. O templo é belo. As torres – portas de entrada para o complexo – seguem os pontos cardeais e são ricamente decoradas e coloridas. Perdes-te entre admirar esta beleza e a do movimento das pessoas.

Mas Madurai foi também o sitio onde domestiquei a minha mente. Depois de algum tempo, decidi que era altura de me organizar e começar a escrever com mais método. Foi difícil. Tinha muito com que me distrair. Lá fora uma cidade que se movimentava e chamava por mim. Cá dentro o conforto de um bom hotel. A luta foi grande, mas sempre que subia um dos prédios para tomar a refeição acabava por sorrir. Olhava para o complexo e tinha a certeza de que estava no caminho certo.

Trichy

A viagem continuou por outra cidade. Por esta altura o meu corpo já se ia habituando às peripécias dos buses indianos. Nem a confusão das estações já faziam muita mossa. No entanto, Trichy tinha para me dar bem mais do que estava habituado. Pela primeira vez senti o cheiro indiano. Já tinha tido umas pistas aqui e ali, mas nada tão intenso. Fruto de uma combinação terrível entre água, calor e lixo. Mas isto é algo que tens de preparar o teu corpo se queres aproveitar o que a India tem para te oferecer. A India nunca foi fácil. Mas sempre interessante. É um sitio que combina realidades antagónicas ficando à mercê da tua escolha. A minha foi ultrapassar estes obstáculos.

Em boa hora o fiz. Trichy tem sitios lindos para contemplares. A zona do forte é uma zona comercial por excelência. Perdes-te sem problemas pois encontras sempre algo que te rouba um sorriso. No meu caso, e depois de ter tentado sem sucesso chegar ao topo do forte, acabei por entrar num templo hindu. Por dentro a luz quase não entrava e as poucas pessoas presentes, meditavam. Deixei-me passear, entrando num mundo novo. Um momento que acabou quando fui “descoberto” por um dos elementos do templo. Acompanhou-me com a sua simpatia até à porta de saída. O momento estava feito e decidi ir ao templo que marca esta cidade.

Rio atravessado e estou perante o primeiro das torres de entrada do templo. Parecem portais para outros mundos. No primeiro, a rua segue cheia de comerciantes e pedintes. Consoante nos aproximamos, a confusão vai ficando para trás e a devoção vai entrando. Acaba por ser um bom templo para estares. Tem diversos locais de devoção em que vês o hinduísmo ao vivo. Gosto dos diferentes trajes, ou de como as pessoas se movimentam com os seus saris coloridos, dando uma vida única a este espaço. Depois de muitas hesitações, acabo por decidir não entrar no centro do complexo. Tenho percebido que os sítios mais sagrados são espaços para a devoção e eu não sou devoto. Poderia matar a minha curiosidade, mas seria apenas isso. Prefiro substituí-la pelo respeito a quem utiliza esse espaço para o fim a que é destinado.

Thiruvannamalai

Cheguei em dia de Festival. Era lua cheia, e por esta altura milhares de fiéis acorrem a esta cidade. O culto é a Shiva na sua forma de fogo. E as chamas espalham-se por cada altar da cidade e em frente às quatro entradas do templo. Surpreende-me a quantidade de pessoas que estão cá. Nunca pensei que uma pequena cidade pudesse conter tantos devotos. À volta do templo, uma fila que deixaria a do museu do Vaticano com vergonha. No rosto das pessoas a imagem de uma longa espera.

Eu passeio-me pelo lado de fora do templo, entre a fila de um lado e as barracas de comércio do outro. Muitas são de comida para satisfazerem os fiéis. A cada fogo, um grupo de pessoas junta-se para as suas orações, unindo as mãos por cima da cabeça.

Já é de noite, e enquanto desço a rua para regressar ao hotel, reparo na vedeta da noite. Depois de muitas tentativas lá consigo captar pela primeira vez a lua cheia. Digo primeira, pois nunca a tinha conseguido tão grande e nítida. Uma mulher, curiosa com o que estava a fazer, aborda-me e atesta que a fotografia saiu bem. Apresenta-me a sua filha, que fala comigo num inglês perfeito e sorriso demolidor - como só as crianças sabem ter (e as indianas em especial).

Acabo por me juntar à fila que seguia pela cidade. Uma corrente imparável de pessoas. Não sabia o caminho, nem precisava. Aqui e ali, as vacas eram tocadas e apreciadas. Não sei muito bem se a abençoar ou a serem abençoadas. Presumo um pouco de ambas. O seu leite era agora entregue aos peregrinos à porta de mais um templo, para que pudessem fazer uma benção.

Sou vencido pelo cansaço e retorno a casa. Noite dormida e no dia seguinte subi a montanha que é o centro desta cidade. Um antigo vulcão, onde Shiva apareceu e deu origem a este culto e templo. O caminho é ingreme, e sob este sol, duro. Faço-o ao meu ritmo até encontrar uma pedra onde repousar. Tenho a sombra do espinheiro para me fazer companhia e paro uns segundos para contemplar a paisagem. No centro o templo, geométrico e perfeito. À sua volta o caos da cidade indiana, com as suas casas cúbicas – de um cubismo abstrato e picassiano – e ruas pequenas. Deixo-me estar em contemplação. Reparo que um sorriso, diferente daquele que me habituei, se forma. Um sorriso que vinha da calma que o meu espírito atingia.

Tamil Nadu, foi uma experiência. Encontro aqui a diversidade e unidade, própria da India. Os cheiros que nos repulsam e os outros que nos atraem. Os templos tão iguais e diferentes entre si. É esta combinação impossível mas real que guardo desta visita. Uma combinação que foi lentamente entrando em mim quando cheguei à India, e que se materializou neste Estado. Numa caminhada que mais que tudo, foi espiritual.

Wednesday, February 1, 2012

Le moi errant: Medo


Somos uma sociedade de medo. Nunca me tinha apercebido, até estar em viagem. É acarinhado e educado um pouco por todo lado. Medo de tudo. Condiciona-nos o subconsciente. Molda-nos o comportamento. Decide por nós mas dá-nos a ilusão de que a escolha é nossa. Um medo intocável e profundo. Nem tem nome. Não sabemos do que temos medo, apenas temos.

Eu não sou diferente. O medo foi o sentimento mais comum até agora. Começou no avião para Istanbul. Mal ouvi que estavamos a chegar, tive um ataque de pânico. Daqueles que te levam ao desmaio. Tudo caiu naquele momento. O medo de cometer um erro, do desconhecido e de estar sozinho. O medo de não conseguir viajar. E depois deste aparecem outros. O medo de não ter meio de sair, de não ter hotel, de apanhar um grande momento e não ter ninguém com quem partilhar. Até o mais ridiculo de todos, o medo do que os outros vão pensar de ti, quando nem sequer tens outros à tua volta.

E quando chegas a este ponto, apercebes-te de como está enraizado em ti. Como as tuas decisões não devem ser baseadas nele mas nas outras coisas. A viagem é uma conquista do medo. Começa logo em casa quando decides ir dar uma volta ao mundo. Mas aí, tudo é muito fácil e romântico. A vida não o é (ou, como eu acredito, no o é apenas). Aqui és forçado a enfrenta-lo. Não tens fuga, e sabes que o caminho que tomares acaba por te definir. Decides abraçar o imprevisto ou escolher a segurança. Liderar o teu caminho ou seguir o dos outros.

E aos poucos vais deixando o medo para trás. Não tens motivos para o teres. Tu não encontras sitios exóticos e incompreensíveis. Descobres que o teu mundo é muito maior que imaginavas. A viagem é como o conhecimento. Tu nunca o aumentas, mas sim a ignorância. E na viagem, quando deixas passar a fase do medo, descobres que quanto mais caminhas, mais mundo tens para o fazer.