E a caminho de completar o segundo mês de viagem, faço a minha primeira pausa neste blogue. Assim, novos posts só em 2012. Nesta semana entre festejos, espero que tenham passado um excelente Natal, e que tenham uma excelente entrada em 2012.
Sunday, December 25, 2011
Thursday, December 22, 2011
Uma pequena aldeia
Sinto o toque leve de algo no meu ombro. Olho para cima. Na minha direcção flutuam pétalas amareladas atiradas pelas mãos simpaticas do empregado do restaurante. Sorrio, pois sei o que significa. Ele devolve-me o sorriso e diz-me “is to give you good luck”. Junto as duas mãos para agradecer.
Sinto-me abençoado, não apenas por este gesto, mas por tudo o que tenho vivido. Estou certo que Ganesha está a olhar por mim. Da mesma forma que tenho a certeza de ter entrado na India mistica. A que nos encanta, não pela sua beleza – que tem – mas por tudo o que nos faz mexer por dentro.
Hampi é um belo sitio para conhecer esta India. Não é grande e por isso não nos engole com os seus estimulos. Mas já é cheia dos pormenores que tanto imaginamos quando pensamos neste país. Fica situada no norte do estado de Karnakata e mais que tudo é uma aldeia rodeada de templos e paisagens magnificas.
Hampi Bazaar
Cor, cor e mais cor. Está em todo o lado. Na bancada à venda, nas paredes das casas, nas roupas que as pessoas vestem. Até os sorrisos das crianças que te abordam à procura do teu nome, foto e algumas rúpias parecem ter uma cor especial. Espalha-se por todo o lado e contagia-te. Hampi é uma pequena aldeia histórica e turistica. Histórica em duplo sentido. Centro de templos centenários e porque vai desaparecer. Toda a parte turistica da aldeia vai ser demolida. Na realidade já o começou a ser. A hampi que descrevo não será a hampi que existirá.
As suas ruas, empedradas ou de terra batida, têm um movimento próprio que tudo funde. Sentes o antigo e o recente, o turistico e o genuino. Convivem a par e passo numa estranha harmonia. No centro das atenções está o Templo de Virupaksha – uma das encarnações de Shiva. Com a sua torre de 50 metros, indianamente ornamentada, não escapa ao nosso olhar. Aqui tudo parece girar à sua volta e constitui um sempre presente elemento que nos vigia e protege.
Uns metros mais abaixo corre o rio Turgabahdra, palco da vida quotidiana. As suas margens são ocupadas pelos banhos e a roupa lavada. A escadaria que nos conduz a este lugar, serve de palco de contemplação de uma das mais belas paisagens que já vi. Algo para saborear ao nosso ritmo. Quer seja o de um click fotográfico ou de um belo pôr de sol.
Vittala Temple e Complexo Real
Por vezes o caminho é mais importante que o local de chegada. Não digo isto para desvalorizar os locais a visitar. Sem dúvida que o Vittala Temple, com a sua carruagem de pedra, ficará na memória. Aqui tudo é rendilhado. Mais que monumentos, eles parecem livros que devemos demorar algum tempo a degustar. E o complexo real trará a calma de espaço cuidado. O pavilhão Lotus, apesar de simples, é um hino à harmonia de formato ondulante. De qualquer ângulo é simétrico. Perdes tempo a andar à sua volta, com a boca aberta de espanto. Quase que te hipnotiza.
No entanto, tudo isto é interligado por caminhos que te levam a paisagens magnificas e te deixam espantado até com as coisas mais simples. Toda a região é constituida por pequenos-grandes grãos que constroem montanhas, margens e que que se equilibram por magia própria deste local.
A região é vasta e pode ser feita de bicicleta ou moto. Como sou do contra, fi-lo a pé. E apesar do cansaço, este ritmo permite observar os pequenos pormenores da vida. As pessoas que se deslocam a pé e a admiração por te verem ali. Serás abordado, e muitas tem genúino interesse em conhecer o estranho que passa por ali a pé. Reparas também nos templos funcionais e no respeito sentido pelas divindades. Vês sobras enferrujadas de uma altura mais rural desta região.
Hanuman temple
E quando caminhamos por sitios que não conhecemos acabamos por nos perder. Mas em viagem, raras são as vezes que isso tem uma carga negativa. Esta não foi excepção. Desta forma fui por caminhos incomuns das montanhas rochosas de Hampi e tive o privilégio de conhecer Oscar, um viajante ingles com quem partilhei uma excelente conversa. Mais um daqueles momentos que a viagem nos entrega.
Quando o encontrei, no meio de um grupo de pessoas que estavam a praticar climbing, estava completamente perdido. Procurava o Hanuman temple e o que deveria ser fácil – pois está no topo de um dos montes – tornou-se numa tarefa impossível. Estranhamente não o via, e sem essa referência, não me conseguia orientar.
Mal lhe perguntei, prontificou-se a me mostrar o caminho. E, passo puxa passo, acabou por decidir ir comigo. Passámos por meio dos arrozais, onde por agora quase todos estão secos, excepto o que serve de cultivo de sementes para a próxima colheita. Esse tem um verde vivo como a India. Atravessamos o ribeiro – que à primeira vista parecia um obstáculo intransponível – para chegar a uma aldeia rústica. E heis que estamos na base dos 570 degraus que nos levam ao templo. Pelo meio da subida ainda paramos à sombra de uma árvore e acabamos rodeados de macacos. Parece que estamos numa varanda do mundo tal é a amplitude da nossa visão.
Com a subida feita, e os pés descalços, chegamos ao local de nascimento de um Deus - Hanuman. Aqui só poderia nascer um deus, tal é a beleza do local. Tudo à nossa volta nos silencia em contemplação.
A descida é mais fácil. A caminhada foi excelente, acompanhada de uma conversa que nos transportou para este e outro mundo. Nos guiou ao passado, presente e futuro. Quando me despedi tinha já a certeza de ter vivido mais um momento mágico da minha viagem. Oscar é a personificação do mundo dos viajantes. Com uma generosidade desprendida, um olhar aberto ao que o rodeia, e uma cultura que alimenta uma boa conversa e desperta o interesse para outras dimensões desta vida.
Não era para estar aqui. Hampi não fazia parte dos meus planos. Mas a dica de um amigo iraniano e de uma amiga portuguesa adicionado dos sorrisos espontâneos das pessoas sempre que mencionava Hampi despertaram a minha curiosidade. Precisava de saber o que Hampi trazia. E agora que releio o que escrevi, acho que não lhe fiz justiça. Hampi não é só os templos ou as paisagens. Não é só a diversidade ou o espirito aldeão. Hampi carrega uma magia dificil de transformar em palavras. Se tivesse que a descrever em poucas palavras diria que Hampi é o local onde podes saborear a India ao teu próprio ritmo. E isso por si só é algo que te encanta e te faz sorrir sempre que pensas nesta pequena aldeia...
Wednesday, December 21, 2011
Le Moi Errant: O caminho
Viajar é deixar que o caminho nos encontre. Parece simples, mas é o obstáculo mais complicado que encontrei. Estava habituado a procurar o que desejo. Esse instinto natural impunha-se. Quase inconsciente, tentava construir o momento. Tal como aprendemos a construir a nossa vida. Mas isso cega-nos para o que está nossa volta e o caminho desaparece.
Tive de refazer a forma como estava perante a vida. E essa mudança abriu-me portas inesperadas. Hoje sinto uma estranha tranquilidade. De vez em quando, até desconfortável. Estava habituado à montanha-russa emocional. Durante anos alimentou-me a escrita. Sinto que tenho de me reconstruir para continuar esse sonho.
Mas sei que dessa reconstrução nasce algo mais poderoso. Mais genuíno do que o que tinha feito até hoje. Começo agora a talhar as minhas ferramentas. Pouco a pouco. Com a certeza que o escritor que há em mim me irá encontrar. Como o caminho o fez. Ganhei uma batalha com o meu maior inimigo – eu próprio – consciente que outras virão.
Mas qual é o meu caminho? É o dos momentos. Dos sorrisos e olhares. O caminho dos acasos e das emoções. Procuro em cada local a que me é oferecida. São pequenas pistas que me guiam ao próximo passo desta viagem...
Cartas a um estranho
Querido Estranho,
Onde estás tu agora? Pensavas encontrar o exótico mas apenas encontras a vida. Nem a transformação do espaço publico em casa de banho te choca. As vacas que se passeiam fazem parte da tua vida e os macacos que saltam de galho em galho são mais um detalhe da tua aldeia.
Para onde fostes que não te vejo? Pensavas encontrar outros mundos e apenas vês que fazes parte de um mundo maior. Que as crianças que se passeiam descalças pelas ruas partilham o mesmo sorriso e alegria que vias a quilometros de distância. Que, cá como lá, tens de estar alerta para quem te quer enganar mas sempre aberto a quem está disposto a te ajudar.
Já nem estranhas as cores cheias de vida que compõem a tua visão. Não te sentes num meio longíquo, mas que as palmeiras que ladeiam o rio são uma paisagem tua. Algo que te conforta a alma. Que te preenche de uma tranquilidade.
Para onde foste com o teu medo da insegurança e do desconhecido? Pensavas encontra-lo aqui mas apenas encontras uma aldeia que é tua, pessoas que são teus companheiros e um mundo que também é o teu.
Devias de estar aqui ao meu lado. Feliz como estou de encontrar novos mundos no meu mundo. De não sentir a ausência mas sim a presença. Não o longíquo mas a proximidade da humanidade. Mas julgo que sei onde estás. Estás dentro de mim. Foste tu que me permitiste estar aqui hoje, a viver esta vida e a escrever estas palavras...
Tuesday, December 20, 2011
Bem-vindo à India
Mais valia dizer “Bem-vindo à India”. Em vez de “São 10 rúpias” . Olho espantado para tal pedido. É a primeira vez que alguém me exige dinheiro para colocar as bagagens no porão do autocarro. A minha passividade latina faz contas e acaba por desembolsar o montante. Com essa tarefa cumprida, entro no autocarro e dou início à viagem que me levaria a Hampi.
Lá dentro - e depois de uma tentativa frustrada de encontrar os números dos lugares - pergunto “Qual é o meu lugar?”
“É este!” responde o revisor apontando para um ocupado por um indiano.
“Qual?!” pergunta que era mais um “Ok... é este... mas está lá uma pessoa...”
“Este, este!” E por esta altura já o chateava com a minha insistência. Com muita relutância pede ao homem para sair e eu ocupo o lugar. Deito-me estendido para vincar que este é só para mim. Mal o autocarro arranca, o revisor pergunta-me se uma outra pessoa se pode sentar na beira da cama. O meu primeiro instinto é dizer não, mas não vejo motivo para negar. Para evitar abusos continuo a ocupar o lugar todo.
Quando reparo na situação, acabo por perceber o rídiculo da minha posição. Na realidade, no lugar que ocupo, cabem duas pessoas. O máximo que estou a atingir é deixar outra pessoa numa posição incomoda. Digo-lhe, por gestos, para se sentar mais à vontade. Ele responde com um sorriso de agradecimento e surpresa. Talvez pelo tempo passado em Goa, este tipo de situação já não me chateava.
Passo o resto da viagem a dormir, até que um sonoro “Hampi Bazaar” me desperta. Olho para o relógio incrédulo. Estamos a chegar uma hora mais cedo. O que até podia ser uma boa noticia, não fossem 5 da manhã. E a esta hora a guesthouse ainda estaria fechada.
Mal coloco um pé fora do bus, sou atacado pelos condutores de rickshaw. “Rickshaw! Rickshaw! Rickshaw! Do you want Rickshaw? What do you want?” A esta hora da madrugada ainda é fácil ignora-los e acabo por ficar um pouco no terminal - nome dado a um pedaço de terra batida.
Passado cinco minutos, sou uma vez mais abordado
- “What do you want?”
- “Nothing”
- “What do you want?”
- “Nooothing”
Algumas repetições depois:
- “What do you want?”
- “Sunrise”
- “I got it” Solto um olhar de espanto
- “Yes... yes... I've got it”
- “You've got sunrise?! How do you have sunrise??”
- “I take you to see sunrise...”
E com a curiosidade satisfeita digo-lhe que isso não quero. Só pretendo que o sol nasça para procurar o meu pouso. Decido aguardar perto das barracas de comida que existem por ali.
Tempo suficiente para outro condutor meter conversa. Apresenta-me um cartão com o nome da guesthouse que tinha reservado. Sorrio por dentro a pensar que posso ir já para o meu quarto. Desenvolvo a conversa e aceito ir com ele. Como era perto diz-me que lhe pago o que quiser. Lá me ponho a caminho e 5 segundos depois estou à porta. Ele diz qualquer coisa lá para dentro e insiste que existem outras guesthouses mais baratas e melhores. Entretanto fala também com uma outra mulher que tenta me mostrar a sua casa. Eu agradeço mas explico-lhes que já tinha marcado esta. O condutor insiste e começo a ver o filme. Digo-lhe que fico ali à espera que abra. Palavra é palavra. Chega então a dona da casa, que, depois de conversar com o condutor, me diz que não há quartos sem ar condicionado. Eu explico que tinha reservado com, mas que não me importo de ficar num sem. Ela aumenta o preço que tinha dito ao telefone.
Cansado, decido voltar para o terminal. O condutor pede-me então o dinheiro – algo que por esta hora já esperava – e eu dou-lhe as 10 rupias com a certeza de que seriam as ultimas que recebia de mim. Ofereceu-se outra vez para me levar ao terminal, mas eu já não estava interessado. Chego para encontra-lo vazio de companheiros de viagem. Estou agora sozinho entre os nativos. Decido sentar-me ao lado de uma bancada de comida que abria.
Peço um chá para passar o tempo. Entretanto os condutores iam e vinham. Sempre perguntando quem eu era, se tinha quarto, qual o meu nome e dando a disponibilidade insistente para eu ir com eles. Decido seguir o exemplo de Buda e não sair do lugar. Explico-lhes isso mesmo, algo que os confunde o suficiente para me deixarem em paz. Com o sol já à vista, decido ir à procura de um quarto. Começo a andar com a certeza de que a paz de Goa ficava para trás e estava quase a entrar numa realidade muito diferente...
Sunday, December 18, 2011
Outros Viajantes II – Lisa, a Designer de Interiores
Por detrás do viajante existe um interesse, um gosto ou uma visão particular. A minha já sabem, é a da escrita. A de Lisa é design de interiores. Conhecia-a no Outro Mundo. Sitio perfeito para se conhecer pessoas interessantes.
Partilhámos conversas, trocámos experiências. Ela e o marido estão em viagem pela Ásia durante seis meses. Descubro a actividade de Lisa pela partilha de uma tarefa comum – postagem de artigos num blogue. Desperta-me a atenção. Gosto de design e em especial o de interiores. Gosto de ocupação de espaços - algo inerente ao ser humano - e da capacidade dessa arte transformar lugares físicos em lugares emocionais.
O site chama-se Natural Modern Interiors. Gostava de chamar a atenção para o post sobre Goa. As fotos estão lindíssimas e quase que apetece dizer que não fomos a Goa se não virmos este post. Vejam estes e os outros que são igualmente interessantes. Sem dúvida uma outra forma de viajar e olhar os locais em que estamos.
E se por acaso tens interesse em Design de Interiores podes também “espiar” os trabalhos que a empresa de Lisa – Interior Designs – fez recentemente. Sinto-me sortudo por a ter conhecido. Sem dúvida enriqueceu a minha viagem. Espero que gostem da sugestão e que também acabem por viajar pelos “interiores” dos outros países.
Resta-me desejar toda a sorte e sucesso do mundo para ambos, e quem sabe se os nossos caminhos não se cruzam noutras latitudes...
Outros Viajantes I- Nuno Cruz, o Viajante Luso
O caminho traz sempre outros viajantes. “Conhecio-o” ainda antes de partir. Fruto de um amigo comum – André Escórcio. Acabei por demorar algum tempo a contactá-lo. Tinha partido à minha frente e não queria ser influenciado pelas primeiras impressões que colhia.
Falo de Nuno Cruz, um outro viajante português que se fez aos caminhos deste mundo. E, sorte a nossa, também ele vai descrevendo os momentos e impressões que vai tendo pelos seus trilhos. Deixo aqui o link para o seu blogue. A sua escrita é de viajante e as suas fotos são impecáveis.
Como é obvio, já o contactei por mail, e fui recebido pela sua enorme simpatia. Pelo meio, a promessa de um encontro, caso os nossos caminhos se cruzem. Será interessante a partilha de reflexões comuns e incomuns. A acontecer será mais um momento da minha viagem. Entretanto fica aqui o cruzamento internautico e a sugestão de leitura e acompanhamento. Sem duvida a seguir, ler e beber cada momento destes trechos do mundo.
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