Procurei o enquadramento perfeito. Queria que vissem o que estava a ver. Mas a escolha não recaiu por esse motivo. Escolhi esta foto pelo momento. Foi especial. Tive que me aventurar para chegar ao rochedo de onde veêm esta paisagem. Sobre mim estava o abrigo dum espinheiro. O sítio tornou-se perfeito para estar. Sentia a brisa que chegava com sabor tropical e ouvia a música da cidade com uma suavidade única. Ao ver tão bela paisagem, tudo parou. E eu fiquei por ali. Naquele segundo sem tempo.
Tuesday, January 31, 2012
Monday, January 30, 2012
A passagem de ano
Tempo de reflexão e votos - like. Dia de stress – dislike. Festa - like. Forçada - dislike. Esta é a minha relação com a passagem de ano. Sempre a desprezar, sempre a festejar. Em viagem não foi diferente. Durante uma semana batalhei para saber onde estaria a 31 de Dezembro. Até que me cansei. Toda a minha vida considerei-a uma festa sem muito sentido (embora seja bela). Agora que tinha oportunidade de escolher o que fazer, estava uma vez mais a cair na malha da preocupação de fim de ano. Um verdadeiro caso para ser estudado pelos cientistas.
Quando decidi seguir o meu caminho, indiferente ao dia, tive o meu momento de brilhantismo. Conseguia romper o ciclo vicioso desta data. Uma maldição que me perseguiu por 32 anos. Em vez de me preocupar com a passagem de ano, preocupei-me mais com os likes.
O primeiro foi passado à frente do computador a enviar mensagens. Depois, perto das 22 horas, saí do hotel para jantar. Escolhi um perto e que não tivesse programa de fim-de-ano. Queria algo com uma boa panorâmica sobre a cidade. Este era, como muitos outros por aqui, no topo de um prédio.
Encomendei a minha comida e deixei o tempo correr. Pelo meio trocava palavras com outras pessoas que estavam sentadas à minha mesa. Quando dou conta, sou o centro das atenções. Um dos poucos ocidentais naquele local. O ambiente é animado e de festa. Sente-se o crescendo da chegada do último minuto. Quando chega o momento é a festa total. Claro que aqui o momento de festejar começa uns 20 minutos antes da passagem de ano. Assim, festejei dez, entre abraços, risos e votos de bom ano.
Lá fora, o resto da cidade acompanhava-nos. Esta era iluminada pelo fogo de artifício. No meio destes festejos, as quatro torres do templo que furam o céu de Madurai continuavam serenas a observar tanta festa. Deixo-me contaminar pela sua calma e sigo o exemplo. Nas ruas, as pessoas pulam e dançam. Os mais aventureiros, têm na mão fogo-de-artifício com que iluminam a sua dança de celebração e dão um caracter mágico ao momento. Sinto-me feliz, não por ter passado mais um minuto no meu relógio, mas por estar naquele momento, àquela hora, a ver isto acontecer...
Sunday, January 29, 2012
De Munnar a Madurai
E ali estava eu. Sentado na paragem de autocarro de Munnar, a ouvir o meu novo “amigo” indiano. Tentava vender-me uma viagem até à fronteira com Tamil Nadu. Tinha perdido o autocarro, e o próximo só vinha às 13 horas, algo que não me atraia. Enquanto ele dizia o preço espetacular que me oferecia, pensava nas opções que tinha.
A primeira - a “oficial” para o meu “amigo” - era esperar até ao autocarro chegar. Essa viagem era apenas um terço do caminho, e tal significava que, com sorte, chegaria de noite a Madurai.. A segunda opção, era aceitar a viagem de 600 rúpias até à fronteira e continuar por bus o resto do caminho. Mas tinha acordado forreta e provavelmente esta custaria 10 vezes mais que o normal. A terceira opção seria apanhar um taxi até Madurai. Apesar do preço astronómico de 2600 rúpias, esta opção garantia que chegava ainda nesse dia ao meu destino.
Com as opções na cabeça deixava o tempo correr para ser menos “interessante” ao meus novos “amigos” - sim, por esta altura já tinha desperto a atenção de mais pessoas. O tempo cura todos os males, e neste caso todos os interesses. Meia-hora depois, já estava livre para confirmar as minhas opções e saber se o preço dado era o normal. Convém confirmar a informação por várias fontes. Uma verdadeira lição de bom jornalismo. Pelo caminho redespeço-me de Dotan e recebo a dica para apanhar o jeep colectivo que ia para a fronteira.
De volta à paragem, sigo em direcção aos jeeps. Encontro um que está quase a sair. “Onde me sento?” Pergunto para receber a resposta óbvia “aqui”. O “aqui” significa um dos bancos laterais da traseira do jeep, num espaço que parecia não “aguentar” mais uma pessoa. Quanto mais uma com duas mochilas de viagem. Mas neste país existe sempre espaço para mais um e lá se arranja um para mim, as minhas mochilas e uma pessoa mais.
Encolhido, e apenas com a ponta do pé a tocar o chão, lá me instalo. Olho à minha volta e todos os lugares parecem ocupados. Ilusão de principiante. Só porque os 6 lugares à minha frente estão ocupados por 6 pessoas tal não significa que o Jeep esteja cheio. Enquanto olho as pessoas à minha volta, apanho o sorriso de uma criança a admirar este ocidental. Algo que me conforta a alma, e que, por si só, valeria a viagem. Quando arrancamos, somos: um motorista, onze adultos, três crianças e umas quantas mochilas.
A viagem, pelo meio das montanhas, foi passada entre tentativas de não voar para o lugar à minha frente, aguentar o máximo de tempo sem me enjoar e a admirar a bela paisagem por onde passava. Esta era uma lufada de ar fresco na minha atribulada viagem.
Duas horas e muitas curvas depois, eramos sobreviventes. Por fim a fronteira entre estados. Tentávamos recuperar o sentido de orientação para a pequena caminhada até Tamil Nadu. Sorrio. Agora só faltava apanhar o autocarro para Madurai. Pelo menos é o que me tinham dito. Depois de consultar o polícia do posto fronteiriço, descubro que ainda tenho de apanhar um bus até outra localidade e só daí é que posso ir para Madurai. Enquanto aguardo pelo autocarro, reparo na beleza desta aldeia fronteiriça. A sensação é que estamos no fim do mundo à beira de entrar noutro. Pouco mais tem que uma estrada, a fronteira e as lojas de rua. Mas está no meio das montanhas e tem uma vista ampla sobre tudo à sua volta.
Ouço o nome da localidade para onde quero ir e o condutor dá-me indicações para entrar. É um taxi colectivo. Aceito o preço e entro no Embassador, um clássico. Apesar da lotação indiana, com o conforto e espaço que tenho, pareço estar numa limusine. Maneira perfeita de me despedir destas belas montanhas. À minha frente vejo a planície cheia de arrozais e palmeiras. Cenário que me acompanhará nos próximos dias.
Chegamos finalmente ao terminal de autocarros. A natureza é agora uma recordação. A substituir tenho a companhia do movimento e barulho desta pequena cidade indiana. Depois de algumas perguntas, encontro finalmente o autocarro. Entro e aguardo que chegue ao destino final. Pelo caminho, tempo para saborear o descanso e uma paisagem tão diferente da que tinha abandonado.
Thursday, January 26, 2012
Um sítio chamado Munnar
Abre o livro da selva. Agora liga a televisão e coloca o filme “Musica no Coração”. Tenta junta-los no mesmo momento e consegues obter uma pequena ideia da paisagem que constitui Munnar. Munnar é para lá de belo. Munnar é Munnar. E é também India. Depois de ter passado quase um mês no Sul da India, pensava que já tinha ficado com uma ideia da região. E como estava enganado. Desde a primeira vez que vi estas montanhas, até ao momento que me despedi delas, o meu queixo não largou o chão.
A pé
Esta tour é boa para estarmos connosco. Deixar os pensamentos fluirem, enquanto nos distraímos com a paisagem. Sentimos uma calma difícil de atingir noutros locais. E quando terminamos a caminhada a olhar para uma cascata perdida no meio da natureza, não conseguimos deixar de sorrir.
Em Tour
Outra forma de fazeres esta região é em tour. E se o tempo limitado para ver cada local te pode afastar desta opção, a oportunidade de conhecer outros viajantes é imperdível. E não sei o que é, mas certos locais parecem ser imans para boas pessoas. Já tinha acontecido em Goa e Hampi, voltou a acontecer em Munnar. Acabei por passar o dia na companhia de três pessoas especiais. Dotan, israelita, músico e simpático. Dani, espanhol e muito divertido. Nadeshwari, do Sri lanka, multi-artista e muito interessante.
E com o “passar o dia”, quero dizer passear-me por um pequeno, mas belo, jardim de flores. Ver os lagos criados pelas barragens. Significa visitar mais uma plantação de chá ou passar o jantar a aprender a comer com as mãos. E terminar a noite a ver uma peça de teatro tradicional e um espetaculo de artes marciais indianas. Foi sem dúvida um dia muito especial. Mais um daqueles momentos que guardo como muito carinho.
E quando saí de Munnar, mais um pedaço de mim ficou por lá. Aquele sitio é mágico. Sei que um dia voltarei lá, é impossível não retornar....
Wednesday, January 25, 2012
Le Moi Errant: Ontem, hoje e amanhã
Ontem era feliz, mas algo dentro de mim não me deixava em paz. Um algo que não conseguia agarrar. Um suspiro nos momentos de felicidade. Um silêncio ensurdecedor nos outros. Suei, aprendi e vivi. Sonhei e realizei esses sonhos. Mais que tudo sorri. Tudo foi dificil. Tudo foi conquista. Andei por ruas escuras. Bati com a cabeça na parede até não sentir mais dor. Puxei o meu limite e encontrei-o.
Hoje é diferente. Rompo a barreira do tempo e do espaço. Encontro novas dimensões na minha existência. Uma construção de muitas realidades. Um olhar diferente. Ando por espaços indefinidos. Por locais inexistentes. Hoje encontro o que ontem não soube descrever. E no meio deste turbilhão continuo a sorrir.
Amanhã já não existirá. Apaga-lo-ei da minha vida. Desaparecerá sem deixar marca. Finalmente soltar-se-á e irá para o seu local, para o amanhã...
Tuesday, January 24, 2012
História de uma foto: Para o céu...
Estava na India, mas não totalmente. O espaço à minha volta parecia ter uma geografia própria e comum a muitos sítios. O lago, os eucaliptos e o verde das montanhas faziam tanto sentido ali, como nos Alpes. E quando olhei para cima, o tempo fundiu-se. Estava no presente e numas décadas atrás. Nessa altura era alguns centimetros mais pequeno, mas os eucaliptos também pareciam enormes como estes. À minha volta, tanto no passado como no presente, uma brisa suave tocava o meu rosto e o som doce do piquenique chegava aos meus ouvidos.
E por breves segundos, o momento congelou-se em muitos momentos e geografias diferentes. Estava sozinho. Entre duas boas conversas, um tecto de eucaliptos e um sorriso interior. Passeie-me lentamente pelos pormenores à minha volta. Pelos sorrisos, descansos, e vozes familiares. Nesse momento pertenci a vários tempos e locais. E quando regressei lentamente à copa dos eucaliptos, e ao raio de sol que tocava o meu rosto, pensei como a natureza é bela e mágica.
Monday, January 23, 2012
A caminho de Munnar
Com as indicações de Firoz memorizadas segui em direcção à primeira paragem de autocarro. Tive de pedir ajuda. Deveria ser ali perto, mas não conseguia encontrar o local. “É já ali” responde-me um vendedor de uma mini-mercearia. E mal aponta, vejo o autocarro a passar por mim. Uma breve corrida e chego a tempo. Digo, perguntando, o meu destino para saber se é o autocarro correcto. O ondular da cabeça do revisor confirma-me que sim. Pelo caminho despeço-me de Forte Cochin.
Saio na paragem que o revisor me indica, mas não encontro o terminal. Saltando de pessoa em pessoa com a minha pergunta: “onde é o terminal?”, sigo uma rua estreita que me direciona ao meu destino. Agora só preciso de encontrar o bus correcto. No meio da confusão, lá me indicam o autocarro. Não é muito atrativo de se olhar, mas uma vez lá dentro nem parece tão desconfortável. Não existem vidros nas janelas, o que permite o ar entrar e observarmos à vontade a paisagem. E se o sol incomodar muito, basta retirar duas patilhas e os estoros descem pela força da gravidade.
O bus arranca assim que fica cheio. Eu tenho um sorriso rasgado. Nem quero acreditar. Vou fazer a primeira viagem num autocarro destes. Preparo-me para o melhor, e principalmente, para o pior.
Sigo por alguns locais citadinos, até atingir as montanhas. Poucas são as palavras para fazer justiça a este caminho. Uma pequena estrada serpenteia as colinas escarpadas das montanhas. À minha volta a selva engole quase tudo, e apenas vejo verde. Não consigo deixar de sorrir. Nem a paragem de 20 minutos, para que um autocarro e um carro consigam cruzar uma curva, me afecta. Como me poderia preocupar quando pareço estar no eden?
O resto da viagem foi um espanto. E o sorriso manteve-se até chegar a Munnar. Uma aldeia no meio das montanhas. Pergunta aqui, corrida de rickshaw ali, lá cheguei à porta da guesthouse combinada. “Não temos quartos” Diz-me ele sem adiantar mais nada. “Sim, mas o Firoz disse-me que me conseguiria arranjar sitio para ficar, mesmo que não fosse aqui” respondo-lhe, já a sentir o nervoso miudinho de quem está a duas horas de perder o Sol e não tem sitio para dormir. “Aqui na rua está tudo esgotado”. Percebo que não adianta ficar aqui, pelo que sigo para a casa de turismo que tinha visto pelo caminho.
Lá dentro três pessoas decidem divertidamente qual a tour que querem fazer. A sua boa onda acalma-me um pouco. Com a decisão da tour tomada, lá consigo explicar o meu caso à pessoa atrás do balcão. Ela diz que acha que tudo está esgotado e sugere que tente um pouco mais à frente, numa das guesthouses existentes. Entretanto outro viajante, que ouvia a minha conversa, dá-me a dica de um hotel que ainda tinha quartos. Peço à empregada do posto para ligar para lá. Enquanto o telefonema vai ocorrendo, a dica multiplica-se por mais três viajantes que estão na mesma situação que a minha.
E lá vamos juntos, ansiosos por saber se existem quartos para todos nós. Acabamos por descobrir que sim. Ninguem iria dormir na rua essa noite. E quando cheguei àquele pequeno quarto de hotel, tudo me parecia perfeito. Dentro de mim crescia um sentimento de que Munnar iria ser especial na minha viagem...
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