Tuesday, April 3, 2012

História de uma foto: Pelos teus olhos


Reparo em ti e vejo uma vida. Um olhar vago preenche os meus pensamentos. Sei que não posso aceder aos teus. Apenas estou aqui, ao longe, a tentar captar a tua beleza.

Pelos teus olhos tento caminhar na tua vida. Tento entender o que motiva esse teu olhar. Pergunto-me o que verás quando os teus olhos se cruzarem com os meus... Verás uma pessoa, ou mais um turista que te poderá dar um pouco do teu sustento? Um estúpido turista que ignora a dureza de uma vida mantida com o pouco que te é oferecido em troca de uma lembrança?
Será que me vês? Ou o hábito de um dia passado no mesmo local te torna cega ao que por aqui se passeia. Eu não fiquei indiferente a ti. Os teus olhos diziam-me que a tua vida não era fácil. Que essa dificuldade não te moldou. As tuas rugas acompanham a beleza do teu olhar. Confidenciam-me que nunca te rendeste. Que ainda hoje olhas à tua volta a admirar o que te rodeia. Estás em vários momentos. Tentas captar um futuro cliente enquanto saboreias o tempo que a tua profissão te permite.
Nesta praça podes ver o mundo. Podes admirar os europeus, americanos e chineses. Aqui e ali os oceânicos. Pelo meio os teus companheiros de cidade. Pelos traços da arquitetura viajas entre o ocidente e oriente, e talvez te orgulhes por seres filha deste local que é um mundo de civilizações...

Monday, April 2, 2012

Momentos sem local

Ao longo da viagem encontras muito. Uma diversidade difícil de igualar. E se a palavra “local” é algo que acaba por aparecer quando o tema é viagem, a realidade é que vai perdendo a força inicial. E por vezes, quase que por magia, o local desaparece do vocabulário. Foi em Kathmandu como local fisico. Tinhamos à nossa volta os nepaleses e os seus monumentos. O ar era definitivamente desta cidade, mas nós não estavamos ali. Estavamos num momento sem local.

Aquele dia passado com o Nuno Cruz – de quem já falei aqui – foi passado em vários locais e vários momentos. Foi passado em emoções e sonhos. Na realidade actual e em projectos futuros. Foi um momento mágico, dificil de transformar em palavras.

A curiosidade era muita. Tenho acompanhado os seus passos por este mundo no seu blogue, e agora tinha curiosidade para estar com ele. Claro que encontrei o viajante – que ele também é – mas mais que isso encontrei um ser humano com uma enorme profundidade. Daqueles que são capazes de mudar o mundo pelas suas acções. E entre um bacalhau, um banco de jardim e um quarto, o tempo fugia ao ritmo das palavras que traziam muitos mundo.

Quando me despedi no aeroporto, ficaram as saudades de tempos futuros e a alegria sempre que te cruzas com uma pessoa especial. Agora os nossos caminhos desenrolam-se em direcções diferentes, mas sempre no mesmo mundo. Não um fisico, mas um de emoções e sonhos.

Sunday, April 1, 2012

Adeus India, Olá Nepal

Já não estava habituado. Depois de 3 meses no mesmo país, heis me de novo a preparar mais uma viagem ao “estrangeiro”. Voltava a sentir o nervoso miudinho no meu estomago. Como presente de fim de India, comprei a viagem de avião para Kathmandu via Delhi. Motivo pelo qual me encontrava no pequeno aeroporto de Dabolim em Goa.
Gosto de pequenos aeroportos. São mais compatíveis com o sentimento de viagem. Os internacionais são higienicos e pertencem a um mundo próprio. Poucas diferenças existem entre eles. Os pequenos têm mais caracter mas também menos para matar o tempo. Este apenas oferecia um café e uma pequena livraria para nos distrairmos. Enquanto olhava para a pequena colecção de livros a minha mente deambulava pelos os sentimentos de uma despedida. Uma viagem tão intensa como a indiana não desaparece com uma simples passagem de fronteira, pelo que preparava o meu corpo para receber o Nepal.
Mas isso ainda estava distante. Antes tinha de passar pela burocratica entrada na área dos viajantes, chegar a Delhi, esperar oito horas repetir tudo uma vez mais até poder chegar ao Nepal. Desde o primeiro dia – e único que utilizei o avião – que estes procedimentos necessários me espantavam. Para um país tão “organizado” como este, era impressionante os passos para atravessar um simples checkpoint.
Fazemos o check in como em qualquer outro país. Esperem... esqueci-me de dizer. Antes deste tens de passar a mala por uma máquina de raio-x - que “convenientemente” está num outro local. Se tiveres sorte - e nada que incomode os seguranças - então recebes um carimbo de aprovação. Claro que não foi o meu caso, e quando a minha mochila foi colocada à parte, já sabia que a vida não seria fácil.
“No lighters...” diz-me o segurança com um simpatico sorriso. Já estava à espera depois de ter perdido os meus quando cheguei à India.
“Is it ok now” perguntei, só para ter a certeza que não cometia nenhum erro ao pegar na minha mochila. Ele olha para o outro segurança, e apesar de não perceber hindi, consigo entender que ainda não...
“Do you have cameras?” pergunta que eu sinto como um punhal nas minhas costas. “sim...” respondo com hesitação. “...mas não faço a minima ideia onde... omg, vou ter de tirar tudo de dentro da mochila...” penso, enquanto a outra parte do cerebro tenta encontrar uma solução.
“Can I see the picture?” foi a que encontrei. Isso e rezar que não estivesse no pior sítio, o meio da mochila.
“Yes of course” e ao ver suspiro de alívio quando reparo que estavam no topo da mochila.
Com este problema resolvido, vou para o check in. Algo que não é complicado. Com a mochila no limite do peso – para meu espanto – é só dar o passaporte e receber o bilhete. Altura para mais uma burocracia: passar para a zona dos passageiros. Nada de especial... bem isto se a pessoa no check in me tivesse dado o papel para ser carimbado pela segurança do check point. Descubro essa falha depois de passar 10 minutos na fila. Altura de regressar ao check in, pedir a etiqueta e voltar a estar mais 15 minutos na fila.
Finalmente na zona de espera do meu avião. A partir deste momento tudo foi simples. Quando o avião levantou voo, parte de mim já se despedia da India. Faltava só a etapa de Delhi, uma noite passada no aeroporto. Mas como estava na India, ainda me estava reservado uma surpresa...
Logo à saída do avião tinha um sentimento estranho. Uma incompatibilidade entre o que a minha mente previa e os meus olhos viam. Algo que confirmei quando saí com a mochila do aeroporto doméstico. Não queria acreditar... Tudo limpo e organizado. Tudo tão... perfeito. Depois de três meses o meu corpo reagia com violência a esta dose de normalidade ocidental. Parecia que tinha regressado à europa.
Com a hora avançada - e o espanto para trás - procurava um lugar para pernoitar. O meu plano original era ficar no local de espera. Claro que fazer planos aqui apenas servem para falharem, e sou barrado à entrada do aeroporto internacional. “Too early” dizem-me enquanto sugerem que vá para uma outra sala de espera num dos cantos do aeroporto. Tento seguir a sugestão, mas antes de entrar na sala vejo um sinal informando-me que a permanência naquele local custava 70 rupias cada hora. Num assomo de avareza, penso que o limpissimo chão do aeroporto dá uma óptima cama.
Depois de encontrado um local agradável, lá me instalo. Bem perto de outros passageiros que tentam fazer o mesmo. A união faz a força, e nestas coisas não gosto de estar sozinho. E com um ajeite aqui, um encolhimento ali, já me sentia numa verdadeira cama. Era altura de poder sonhar...
“Excuse me...” acordo sobressaltado com este comentário. Era um policia. Por esta altura já consegui ler na sua cara o que me queria transmitir. Primeiro com uma cara mais rude - talvez a pensar que era indiano - depois com uma cara mais gentil quando ouve que sou estrangeiro. E de uma forma muito educada diz-me para sair dali e ir para a sala de espera. Eu explico-lhe que não quero pagar o dinheiro, e ele diz-me, para meu espanto, que apenas preciso de mostrar o bilhete.
Lá regresso ao local que tinha estado uma hora antes e o meu espanto não termina. Depois de vaguear à procura de um lugar, reparo que têm chaise longues para descansar. Enquanto vou ajeitando o meu corpo - e deixando-me embalar pelo sono - guardo os meus últimos pensamentos. Sorrio ao imaginar quão os turistas devem ser enganados com a chegada a este local, antes de enfrentar todos os desafios que a incrivel India tem para dar.
No dia seguinte, tudo foi mais mecânico. Talvez a ansiedade superava o dia de despedida. Com tudo programado, rapidamente me encontrava no meu lugar no avião. Olhava à minha volta, e os rostos das pessoas não enganavam. Estava a ir para um novo país. Os traços da asia oriental já penetravam as faces dos passageiros. Quando é anunciado que estamos a chegar, sinto de novo aquele arrepio de uma nova aventura. Era altura de cumprimentar um novo país.

Friday, March 16, 2012

Obrigado!


A India é... | x | ← colocar o adjectivo que quiserem escolher. Ele fará sentido. Percebo agora porque é que este país capta a imaginação de tantos, durante tanto tempo. Tentei descrever o melhor que pude mas isso é tarefa impossível. Apenas consegui transmitir uma pequena imagem, de quem apenas conheceu um pouco este país. Noventa dias neste país é o equivalente a um atomo de uma migalha do maior bolo do mundo.

Mas foi tanto o que aconteceu. Tanto que vi e senti. Fui empurrado para todas as emoções. E com isso cresci. E se esta sociedade é responsável por esse percurso, são os momentos partilhados e vividos que fazem o ritmo do meu coração aumentar e os meus olhos humedecerem.

Podia tentar imaginar, podia tentar planear, mas sei que seria impossível sonhar com melhor viagem que esta que vivi. E apesar de ser o actor que une todas as diferentes histórias, as verdadeiras estrelas – bem brilhantes neste firmamento – são as pessoas que tive o privilégio de conhecer. A todos, aos que nomeio e aos que omito por esquecimento, um enorme e muito sentido obrigado. Sei que na vossa vida fui um momento, ou uns dias, mas não imaginam como é estupendo estar deste lado e ver tanta riqueza humana passar pelo meu caminho.

De uma forma, ou de outra, estas são as pessoas que tornaram a India o que é para mim: um sitio mágico e que ficará tatuado no coração.

Agora que parto, recordo tantos momentos. A simpatia e gentileza do Sr. Bento em Panjim. A conversa doce com Mariah enquanto partilhavamos uma mesa ao jantar. O Manchester City de Ian (será este ano?), a escrita de artigos partilhada com Lisa. A despedida sentida de Serafin no seu Ordo Sounsar e a forma como LD me fez sentir em casa nesse espaço. Isto sem esquecer o eclipse partilhado com eles. E ainda por lá, encontrei a generosidade e simpatia de Tom que me oferecia a sua casa se passar por Munich.

Impossível esquecer a caminhada, conversa e personalidade de Oscar em Hampi. Ou o momento partilhado numa agência de viagem/bus stop perdida no meio de Hospet com Selina. A forma como Firoz se preocupava comigo na sua guesthouse em Cochin, enquanto um idoso cliente levantava todos os obstaculos possíveis.

Assim como levarei no coração o abraço de despedida em Munnar de Dotan, ou o reencontro com  Dani depois de Munnar. E ainda nos meus ouvidos, está a voz de Nadesh enquanto cantava no Echo Valley. Penso no café e a ajuda preciosa de Divya em Chennai. Café partilhado com os seus amigos e onde conheci a simpatia de Alex e a hospitalidade de Vinoth, viajante indiano, que fez questão de negociar a corrida de rickshaw para a minha tão aguardada viagem de comboio.

E como me senti entre amigos, numa estação de bus na companhia de Yogesh e seus comparsas em Mumbai. E existem momentos que são felizes coincidências. Como a de partilhar um poeirento autocarro com Jure. Uma viagem transformou-se numa daquelas conversas que nos levam a muitos lugares.

Claro que para mim o Rajastão estará sempre ligado a Hannah, que me ajudou a desbloquea-lo e com quem partilhei tantos momentos. Dificil de escolher um, mas agora que parto talvez escolha o pôr-de-sol, enquanto eramos “vedetas” para as camaras dos papparazi's atrás de nós. Uma imagem surreal como apenas a India permite. E deste estado guardo no coração a simpatia humilde de Badal em Khuri, algo que me tocou. Uma pessoa que parece transpirar rectidão e simpatia. Igualmente tocante foi a alegria e boa disposição de Kukki vivida enquanto cruzavamos as estradas rurais de Bundi. Aqui fiquei hospedado mesmo ao lado do restaurante de Chetna e Tony, um casal tão simpatico como bem humorado e que espero que um dia possam ir à europa e se tiverem por lá, que os possa ver em Portugal.  Foi também aqui que conheci maravilhoso Dustin com quem partilhei excelentes conversas à beira-lago. Mas sobre ele acho que me alongarei quando o visitar no seu país, o Vietnam.

E quando pensava que me restava apenas visitar os monumentos icónicos de India, heis que me é introduzida a vontade de aprendizagem e simpatia de Pramod em Varanasi. Ou então a hospitalidade e irmandade de Abid e Hassan em Kajuraho. Isto apenas para ser maravilhado por um dia que não estava nos planos com Fernando e onde pude reaprender a falar português, enquanto a nossa conversa saltava do inglês para o português, ao sabor do hábito e esquecimento.

E para terminar a viagem de forma perfeita heis que o meu caminho se cruza com o de Aurelie. E entre o sorriso inicial em Panjim e a despedida na bus station de Madgaon foram muitos momentos especiais partilhados, impossíveis de escolher num só momento.

E estes são apenas fragmentos de momentos partilhados com pessoas especiais. Uma humanidade de pessoas, que enriqueceram-me, fizeram-me feliz e mais que tudo preencheram o meu coração. A todos o meu mais amplo obrigado. Nunca vos esquecerei e espero reencontrar-vos nestes caminhos do mundo. 

Wednesday, March 14, 2012

Le moi errant: Aceitação


Tudo se resume a isto: nunca me aceitei. Todo o meu vazio, os meus choros ou depressões estão contidas nessas três palavras. Sou teimoso. Segui alguns dos meus instintos, fiz as minhas escolhas e acabei por trilhar o meu caminho. Mas em qualquer destas alturas nunca me tinha aceite. Por dentro a vazio não terminava, as lágrimas corriam e as depressões seguiam trajetoria de um yo-yo.

Apesar das decisões difíceis, ou da criação deste projeto, o vazio ainda cá estava. Nasceu bem cedo. Nem tenho recordação do momento. Mas foi crescendo comigo. Tornando-se maior e mais invisível. Sempre coloquei uma carga negativa no que fazia. Sentia que não era normal, mas acabava por o fazer. Quase de olhos fechados.

Mas só agora, há poucos dias, é que se tornou claro. Tudo o que acontecia e sentia passava por essa parte. Enquanto caminhava ia conhecendo tantas pessoas e partilhando tantos momentos, que a determinada altura fui forçado a começar o processo de aceitação. Começou no Irão, mas teve o seu maior impacto aqui na India. Relacionado com os mesmos estão momentos que se partilham com outros e não com palavras.

Hoje vejo quanto o meio em que vivemos nos molda e quebra. Como nos fazem optar pela norma ou aceitar a rejeição. É uma dura escolha. Uma que fiz por pura teimosia, e algum masoquismo. Nunca quis dobrar ao que os outros mandavam. Mas por dentro esse comportamento teve o preço de um vazio.

Sempre que olhava para dentro rejeitava o que via. Eu era eu, mas tentava ser um outro. Acontecia de forma sublime, e passeava-me entre mundos. Agora sinto que já não preciso disso. Eu não sou anormal ou normal. Sou uma simples pessoa. Que como todas, tenho caracteristicas, gostos e forma de viver. Não são boas, não são más. São minhas. Sei que serão sempre julgadas pelos outros, mas isso nunca me interessou muito. Pois, no meio do meu egocêntrismo, sempre percebi que o meu julgamento era o mais forte de todos.

Hoje sei que não sou anormal por alguns gostos que tenho. Ou por algumas emoções que sinto. Mas também sei que não sou o único. Que por mais originalidade ou estranheza, existe sempre alguém que partilha um pouco do que nós sentimos.

Escolhi como propósito da minha viagem a liberdade. Não sabia o quão profundo é esse caminho. Hoje passo pelo degrau da aceitação. Sabendo que este é apenas mais um dos que terei de escalar para me poder libertar...  

Tuesday, March 13, 2012

História de uma foto: O Sorriso


Hoje tenho poucas palavras para esta foto. Na última semana, ofereço como foto aquilo que é o maior highlight da India e humanidade: o sorriso!


Monday, March 12, 2012

10 Dicas para visitares a India


Está quase. Neste momento que escrevo faltam alguns dias para partir. Foi uma experiência brutal. Daquelas que te muda, e da qual já não regressas. É um outro estranho que sai da India. Mas antes de o fazer, queria partilhar umas dicas sobre este imenso país. Talvez vos possa ajudar quando decidirem a se aventurarem por aqui:

1 – Nenhuma dica faz sentido para a India

Esqueçam tudo o que direi. O mais certo é que não se aplique. E estando na India se calhar até se aplica.Confusos? Optimo. Então já estão a saborear um pouco da India. Esta é imprevísivel e pessoal. Será aquilo que tu és. O seu encanto é mesmo esse, o de nunca ser a mesma. Portanto estão mesmo por vossa conta.

2 – Tudo faz sentido e o seu contrário também

Talvez a caracterista que mais amei na India. Aqui a realidade é muito diferente da nossa. Estamos tão habituados a ter o branco, preto e um conjunto de cinzentos pelo meio, que ficamos confusos quando aqui aterramos. Aqui a realidade é mais quântica que linear. Por isso, não existe outra forma de a descobrires senão experimentares. O que parece ser sujo não o é. O pobre é rico e mais sábio que tu. Por isso vem com a mente aberta a algo que tu nunca viste.

3 – A letra P foi inventada para construir a palavra paciência e para a utilizares aqui

Se não tens, passas a ter. Se já tens, vais aumenta-la. A India não é fácil. Pode, se tu deixares, levar-te à loucura. Mas o segredo está mesmo aí: está tudo nas tuas mãos. Se quiseres encontrarás muitos motivos para te enervares. Transportes com atrasos, algo que combinaste mas não aconteceu ou mesmo aquela espera desesperante pelo empregado do restaurante. Mas por outro lado, podes tomar consciência dessa realidade e adaptares ao que está à tua volta. De qualquer das maneiras, traz uma boa dose de paciência, que será sempre importante.

4 – A India existe há milhares de anos e continuará a existir depois de saires daqui

Eu diria que é o Sindrome Ocidental. Passei pelo mesmo. No início tudo é esmagador. E enquanto estiveres em modo “ocidental” vai-te nascer uma vontade enorme de ajudar ou mudar esta realidade. Esquece isso. A India é mais antiga que qualquer nação europeia e já sobreviveu a basicamente tudo. Por isso devem estar a fazer algo bem. De qualquer forma, esta é uma sociedade com as suas regras, e não é no pequeno periodo que estás aqui que algo mudará.

5 – Cuidado com o que desejas

Esta é talvez uma das maiores dicas. Normalmente acabas por obter aquilo que desejas mas não da forma como tinhas imaginado. Assim tem muito cuidado com o que procuras porque de certeza que o vais encontrar.


6 – Existem todos os motivos para não funcionar, mas funciona

Isto é um dos encantos deste multi-país. Independente do que vês, as coisas funcionam. Muitas vezes parece pura magia. Pelo menos é o que penso sempre que olho para um poste de electricidade, ou quando estou no meio do trânsito. Por isso, e apesar do que todos os teus instintos te digam, podes ter a certeza que irá funcionar.

7 – Os indianos criaram a lei de Murphy e o seu antidoto

A lei de Murphy deveria chamar-se a lei indiana, tal é a propensão para algo falhar. Mas tendo eles inventado esta lei, também aprenderam a encontrar uma solução. Assim, mais que stressar o melhor é deixares as coisas fluirem até uma solução aparecer. E aqui o equilíbrio é a nota dominante. Não podes ser passivo nem demasiado activo. O truque está em descobrir os pontos que fazem as coisas acontecer. Lembro-me agora do dia em que mandei revelar as fotografias. Queria oferece-las às pessoas das aldeias por onde tinha passado. Mas só ia ficar um dia mais por isso sabia que estava a cometer um risco. Claro que o inesperado aconteceu e as fotos foram parar a outra vila. E na altura, em vez de me chatear e preocupar, basicamente fiz questão de lhe frisar a promessa que ele tinha feito. Três horas depois tinha as fotos na mão e um sorriso no rosto.

8 – Fácil é algo que não combina com India

Se andas à procura duma experiência fácil não venhas à India. E difícil é mesmo díficil. Por isso pondera sempre muito bem antes de decidires vir cá. A India pode ser a tua melhor, ou pior, experiência. Mas se estás preparado para isso (não realidade nunca o estás mas o que conta é que penses que sim), e se aceitares o que a India tem para dar, vais ter a experiência da tua vida.

9 – Só podes receber aquilo que dás

Talvez o maior presente que recebi, mas um que vos devo de avisar. A India é aquilo que tu és. Ou melhor, aquilo que tu dás. Nunca senti tanta reciprocidade como aqui. Se acordasse mal disposto e com uma cara menos amistosa, a India transformava-se em algo agressivo e dificil. Se estava com um sorriso rasgado então a India era algo magnifico. E nesse sentido a India é muito generosa. O que deres ela devolver-te-a 10 vezes mais. Mas isso é para tudo o que deres, seja bom ou mau. Começas a compreender que o que está à tua volta está nas tuas mãos, e acabas por iniciar uma viagem interior do qual regressarás de forma diferente.

10 – Prepara-te para os sorrisos

E esta é a maior dica de todas. Sei que as pessoas – e eu não serei diferente quando me perguntarem – têm uma tendência para alertar para o pior. Neste caso o lixo, a confusão, o hustle-hustle, as crianças a pedir, as casas de banho em público, etc... Mas isso é algo que tu ultrapassas num instante. O que te esmaga e te reduz ao ser mais insignificante - em que não és mais que uma massa gelatinosa em forma de ser humano - é o sorriso de uma criança. São brutais e vão-te desfazer tudo o que tens por dentro. Por isso – e apesar de saber que é impossível – prepara o teu corpo para receberes o poder gentilmente brutal dos sorrisos das crianças indianas...